Estêvão da Guarda - Todas as cantigas

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Cancioneiros:

B 619, V 220
(C 619)

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Ora, senhor, tenho muit'aguisado
de sofrer coita grand'e gram desejo,
pois d'u vós fordes eu for alongado
e vos nom vir, como vos ora vejo;
5e, mia senhor, éste gram mal sobejo
meu e meu gram quebranto:
seer eu de vós, por vos servir quanto
posso, mui desamado.
  
Desej'e coita e [mui] gram soidade
10convém, senhor, de sofrer todavia,
pois, d'u vós fordes i, a gram beldade
voss'eu nom vir, que vi em grave dia;
e, mia senhor, em gram bem vos terria
de me darde'la morte
15ca de viver eu em coita tam forte
e em tal estraĩdade.
  
Nom fez Deus par a desejo tam grande,
nem a qual coita sof'rei , des u me
partir de vós; ca, per u quer que ande,
20nom quedarei ar, meu bem e meu lume,
de chorar sempre e com mui gram queixume
maldirei mia ventura:
ca de viver eu em tam gram tristura
Deus, senhor, non'o mande!
  
25E queira El, senhor, que a mia vida,
pois per vós é, cedo sej'acabada,
ca pela morte me será partida
gram soidad[e] e vida mui coitada;
de razom é d'haver eu desejada
30a morte, pois entendo
de chorar sempre e andar sofrendo
coita desmesurada.


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Cancioneiros:

B 620, V 221

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Por partir pesar que [eu] sempre vi
a mia senhor haver do mui gram bem
que lh'eu quero, desejava por en
mia mort', amigos; mais, pois entendi
5       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu des i desejei a viver.
  
Veend'eu bem que do mui grand'amor
que lh'eu sempr'hou[v]i tomava pesar,
ia por end'a morte desejar;
10mais pois, amigos, eu fui sabedor
       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu, des i, desejei a viver.
  
Se me Deus entom a morte nom deu,
nom ficou já por mim de lha pedir,
15cuidand'a ela tal pesar partir;
mais pois, amigos, bem [certo] fui eu
       que lhe prazia de me mal fazer,
       log'eu, des i, desejei a viver.
  
Nom por mia prol, mais pera nom perder
20ela per mim rem do que lh'é prazer.


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Cancioneiros:

B 621, V 222

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Sempr'eu, senhor, mia morte receei
mais doutra rem e já, per boa fé,
non'a rece[o], e vedes por que é:
por aquesto que vos ora direi:
5       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor.
  
Cuidava-m'eu que sempre de temer
houvess'a morte, que sempre temi,
mais ora já, senhor, nom est assi,
10por aquesto que vos quero dizer:
       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor.
  
Nom me passava sol per coraçom
que eu podesse da morte per rem
15perder pavor, mais ora vejo bem
que o nom hei e vedes por que nom:
       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor,
  
que eu sempr'houv'; e par Deus, mia senhor,
20muito me foi de o perder peor!


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Cancioneiros:

B 622, V 223

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Ouç'eu muitos d'Amor que[i]xar
e dizem que per el lhes vem
quanto mal ham e que os tem
em tal coita que nom há par;
5       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor
  
que m'ela tem; pero que al
ouço i eu a muitos dizer,
que lhes faz gram coita sofrer
10Amor, onde lhes vem gram mal,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor
  
que m'ela tem mui sem razom;
pero vej'eu muitos, de pram,
15que dizem que quanto mal ham
que d'Amor lhes vem e d'al nom,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor
  
que m'ela tem; e que peor
20poss'haver ca seu desamor?


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Cancioneiros:

B 623, V 224

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Estraĩa vida viv'hoj'eu, senhor,
das que vivem quantos no mundo som:
como viver pesand'a vós e nom
haver eu já doutra cousa sabor
5senom da morte (por partir, per i,
pesar a vós e mui gram mal a mim)
e fazer-me Deus, morrendo, viver
  
em tal vida, qual mi oídes dizer,
viv'eu, senhor, fazend'a vós pesar
10e mal a mim, e nom me quer Deus dar
de o partir nẽum sem nem poder;
e pero, senhor, grand'é meu mal,
vedes o que mi é mais grave que al:
o pesar é que vós tomades en,
  
15ond'a mim, senhor, quanto mal m'en vem!
– podendo Deus tod'este mal partir
per mia morte, que nom quer consentir,
porque sabe que mais morto me tem
per viver eu, pois a vós pesar é.
20Quanto mal, senhor, per boa fé,
há em tal vida dizer non'o sei!


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Cancioneiros:

B 624, V 225

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Do que bem serve sempr'oí dizer
que bem pede; mais digo-vos de mi:
pero que eu, gram temp'há, bem servi
ũa dona que me tem em poder,
5que nom tenho que, per meu bem servir,
eu razom hei de lhi por en pidir
o maior bem dos que Deus quis fazer.
  
Bem entend'eu que logar deve haver
o que bem serve de pidir por en
10bem com razom (mais éste tam gram bem
que lhi nom pod'outro bem par seer);
pois d'eu bem servir ũa dona tal,
por lhi pedir bem que tam muito val,
sol non'o dev'em coraçom poer.
  
15E, meus amigos, quem bem cousecer
o mui gram bem que Nostro Senhor deu
a esta dona, bem certo sei eu,
se houver sem, que bem pode entender
que, per servir, quantos no mundo som
20nom devem sol põer em coraçom
que pedir possa em tal bem caber.
  
Por end'a mim convém, querend'ou nom,
de servir bem, sem havendo razom
que, per servir, haja bem d'atender.


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Cancioneiros:

B 648, V 249

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão e Paralelística

- Dizede-m'ora, filha, por Santa Maria,
qual est o voss'amigo, que mi vos pedia?
       - Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
  
- Qual e[st o] voss'amigo que mi vos pedia?
5se mi o vós mostrássedes, gracir-vo-lo-ia.
       - Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.
  
- [S]e mi o vós amostrardes, gracir-vo-lo-ia,
e direi-vo-l'eu logo em que s'atrevia.
       - Madr', eu amostrar-vo-lo-ei.


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Cancioneiros:

B 779, V 362
(C 779)

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão, Dialogada

- A voss'amig', amiga, que prol tem
servir-vos sempre mui de coraçom
sem bem que haja de vós se mal nom?
- E com', amiga?! Nom tem el por bem
5       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?
  
- Que prol tem el ou que talam lhe dá
de vos servir e amar mais que al
sem bem que haja de vós se nom mal?
10- E nom tem el, amiga, que bem há
       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?
  
- A Deus, amiga, que nos ceos sé,
pero sei bem que me tem em poder,
15non'O servirei senom por bem fazer.
- E com', amiga?! E tem el que pouc'é
       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?


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Cancioneiros:

B 1300, V 904
(C 1300)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

A um corretor que vi
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
5E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
       ham-no mester, ham-no mester!
  
E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos de vergrós;
10mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
       ham-no mester, ham-no mester!
  
15E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
20el e aquesta sa molher,
       ham-no mester, ham-no mester!


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Cancioneiros:

B 1300bis, V 905

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

D'ũa gram vinha que tem em Valada
Alvar Rodriguiz nom pod'haver prol,
vedes por quê: ca el nom cura sol
de a querer per seu tempo cavar;
5e a mais dela jaz por adubar,
pero que tem a mourisca podada.
  
El entende que a tem adubada,
pois lha podarom, e tem sem razom:
ca tam menguado ficou o terçom
10que a cepa nom pode bem deitar,
ca em tal tempo a mandou podar
que sempr'e[la] lhe ficou decepada.
  
S'entom de cabo nom for rechantada,
nẽum proveito nom pod'end'haver,
15ca per ali per u a fez reer
já end'o nembr'está pera secar;
e mais valria já pera queimar
que de jazer, como jaz, mal parada.


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Cancioneiros:

B 1301, V 906

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Alvar [Rodriguiz] vej'eu agravar
porque se sent'aqui menguad'andar
e tem que lh'ia melhor além mar
que lhe vai aqui, u nasceu e criou;
5e por esto diz que se quer tornar
       u, gram temp'há, serviu e afanou.
  
Tem el que faz dereit'em se queixar,
pois lhe nom val servir e afanar,
nem pod'aqui conselho percalçar
10com'além mar, per servir, percalçou;
por en quer-s'ir a seu tempo passar
       u, gram temp'há, serviu e afanou.


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Cancioneiros:

B 1302, V 907

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

A molher d'Alvar Rodriguiz tomou
tal queixume quando s'el foi daquém
e a leixou que, por mal nem por bem,
des que veo, nunca s'a el chegou
5nem quer chegar, se del certa nom é,
jurando-lhe ante que, a bõa fé,
nõn'a er leixe como a leixou.
  
E o cativo, per poder que há,
nõn'a pode desta seita partir,
10nem per meaças nem pela ferir,
ela por en nẽũa rem nom dá;
mais, se a quer desta sanha tirar,
a bõa fé lhe convém a jurar
que a nom leixe em nẽum tempo já.


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Cancioneiros:

B 1303, V 908

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Rubrica:

Esta cantiga de cima foi feita a um meestre de leis, que era manco d' ũa perna e sopegava dela muito.

Em preito que Dom Foam há,
com um meestre há gram castom;
e o meestre pressopom
o de que o dereit'está
5tam contrairo, per quant'eu vi,
que, se lh'outrem nom acorr'i,
o meestre dequeerá.
  
Mais, se decae, quem será
que já dereito nem razom
10for demandar nem defensom
em tal meestre, que nom dá
em seu feit'ajuda de si,
mais levará, per quant'oí,
quem lh'o dereito sosterrá?
  
15Ca o meestre entende já,
se decaer, que lh'é cajom
antr'os que leterados som,
onde vergonha prenderá
d'errar seu dereito assi;
20e quem esto vir, des ali,
por mal andante o terrá.


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Cancioneiros:

B 1304, V 909
(C 1304)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Rubrica:

Esta cantiga de cima foi feita a um cavaleiro, que lhe apoinham que era puto.

Um cavaleiro me diss'em baldom
que me queria põer eiceiçom
mui agravada, come home cru.
E dixi-lh'entom como vos direi:
5- Si mi a poserdes, tal vo-la porrei,
       que a sençades bem atá o cu.
  
E disse-m'el: - Eiceiçom tenh'eu já
tal que vos ponha, que vos custará
mais que quanto val aqueste meu mu.
10E dixi-lh'eu: - Poilo nom tenh'em al:
se mi a poserdes, porrei-vo-la tal,
       que a sençades bem atá o cu.
  
- Tal eiceiçom vos tenh'eu de põer -
diss'el a mim - per que do voss'haver
15vos custe tanto que fiquedes nu.
E dixi-lh'eu: - Coraçom de judeu,
se mi a poserdes, tal vos porrei eu,
       que a sençades bem atá o cu.


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Cancioneiros:

B 1305, V 910

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um juiz que nom ouvia bem

Meu dano fiz por tal juiz pedir
qual mi a reínha, madre del-rei, deu
- um cavaleiro oficial seu -
pois me nom val d'ante tal juiz ir;
5ca se vou i e lev'o meu vogado,
sempre me diz que está embargado,
de tal guisa que me nom pod'oir.
  
Por tal juiz nunca jamais será
desembargad'este preito que hei,
10nem a reínha nem seu filh'el-rei,
pero lhe mandem, nunca m'oirá;
ca já me disse que me nom compria
d'ir per d'ant'el, pois m'oir nom podia,
mentr'embargad'estever com'está.
  
15Mais a reínha, pois que certa for
de qual juiz ena sa casa tem,
terrá por razom - esto sei eu bem -
de põer i outro juiz melhor;
e assi poss'eu haver meu dereito,
20pois que d'i for este juiz tolheito
e me derem qualquer outr'oídor.


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Cancioneiros:

B 1306, V 911
(C 1306)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Pois a todos avorrece
este jogar avorrido
de tal molher e marido,
que a mim razom parece
5       de trager, por seu pedrolo,
       o filho d'outro no colo.
  
Pois ela trage camisa
de sirgo tam bem lavrada,
e vai a cada pousada
10por algo, nom é sem guisa
       de trager, por seu pedrolo,
       o filho d'outro no colo.
  
Como Pero da Arruda
foi da molher ajudado,
15nom é mui desaguisado,
pois lh'esta faz tal ajuda,
       de trager, por seu pedrolo,
       o filho d'outro no colo.


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Cancioneiros:

B 1307, V 912

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Disse-m'hoj'assi um home:
- Vai-se daqui um ric'home.
Dix[i]-lh'eu: - Per com'el come,
pois que m'eu fiqu'em Lixboa!
5Já que se vai o ric'home,
varom, vá-s'em hora boa.
  
E disse-m'el: - Per Leirea
se vai, caminho de Sea.
Dixi-lh'eu: - Per com'el cea,
10pois eu fiqu'em Stremadura!
Se vai caminho de Sea
el, vá-s'em boa ventura.
  
Disse-m'el: - Este caminho
se vai d'Antre Doir'e Minho.
15Dix'eu: - Pois bevo bom vinho
aqui, u com'e nom conto,
se vai Antre Doir'e Minho,
senher, vaa-s'em [bom] ponto.


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Cancioneiros:

B 1308, V 913
(C 1308)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um doutor que meteu por seu mes[s]egeiro pera juntar seu casamento um home que era leigo e casado e fora ante frade pregador; e o que se sal da ordem chamam-lhe apóstata. Esta cantiga é a de cima.

Pois teu preit'anda juntando
aquel que é do teu bando,
di-me, doutor, como ou quando
lhe cuidas fazer enmenda
5por quant'and'el trabalhando
       com'aposta ta fazenda.
  
Pois com muitos há baralha
por te juntar prol sem falha,
di, doutor, si Deus ti valha,
10se lhe cuidas dar merenda
por quant'el por ti trabalha
       como apostat'a fazenda.
  
Pois anda tam aficado
por teu preito haver juntado,
15di, doutor, cabo casado
que prol tem i ou quejenda
o que toma tal cuidado
       com'há posta ta fazenda.


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Cancioneiros:

B 1309, V 914
(C 1309)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um galego que se preçava de trobar e nom o sabia bem; e meteu-s' à maneira de tençom com [E]stêvam da Guarda e Estêvam da Guarda lhi fez esta cantiga; e el andava sempre espartido; e nunca lhi entendeu a cantiga nem lhe soube a ela travar.

Pois que te preças d'haver sem comprido
em trobar bem e em bõa razom,
nom faz mester a ti, Fernam Chancom,
d'ir entençar come torp'e avorrido
5nem te loares come quem s'engana
e de palavras torpes e d'oufana
e de posfaço seer espargido.
  
Ca sempre contam por ensibidade
ao pastor preçar-se de gram sem
10nem gram saber; por end'a ti convém,
enquanto és [a]tam pastor d'idade,
pois em tam alta razom [tam muit'] ousas,
que punhes sempre, antr'as outras cousas,
seeres partido de torpidade.
  
15Nom entendas que fazes i cordura
d'ires assi come torpe entençar,
atrevendo-te que sabes trobar,
- ante metes i teu feito em ventura;
por en nom queiras seer enganado
20em tal razom, mas sei sempr'acordado
de seeres parado de loucura.
  
E pois em al és mans'e mesurado
nom entences: sequer serás loado
no que tu és partido de bravura.


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Cancioneiros:

B 1310, V 915

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Bispo, senhor, eu dou a Deus bom grado
porque vos vej'em privança entrar
del-rei, a que praz d'haverdes logar
no seu conselho mais doutro prelado;
5e porque eu do vosso talam sei
qual prol da vossa privança terrei
rogo eu a Deus que sejades privado
  
do [pre]bendo e de quant'al havedes:
fazede sempre quant'a 'l-rei prouguer,
10pois que vos el por privad'assi quer;
e pois que vós altos feitos sabedes
e quant'em sis'e em conselho jaz,
varom, senhor, pois desto al rei praz,
fio per Deus que privado seredes
  
15per este Papa, quem duvidaria
que nom tiredes gram prol e gram bem
quand'el souber que, pelo vosso sem,
el-rei de vós mais doutro varom fia;
e pois vos el-rei aqueste logar dá,
20Bispo, senhor, u outra rem nom há,
vós seredes privado todavia
  
deste vosso benefício,
com ofício,
quem duvidará
25que vo-l'esalcem em outra contia?


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Cancioneiros:

B 1311, V 916

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Donzela, quem quer que poser femença
em qual vós sodes e de que logar,
e no parecer que vos Deus quis dar,
entender pode, quant'é mia creença,
5que, pois vos querem juntar casamento,
nom pod'haver i nẽum partimento
senom se for per vossa negrigença.
  
E quem bem vir o vosso contenente
e as feituras e o parecer
10que vós havedes, bem pod'entender
em tod'aquesto, quant'é meu ciente,
que, bem ali u vós casar queredes,
nom se partirá que i nom casedes
senom per serdes vós i negrigente.
  
15Ca sei eu outra nom de tal doairo
nem de tal logar come vós, de pram,
com aguça que tomou de talam
de casar cedo, nom houv'i contrairo;
por en vos compre, se casar cuidades,
20de negrigente que sodes, sejades
mui aguçosa, sem outro desvairo.


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Cancioneiros:

B 1312, V 917

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Rui Gonçálviz, pero vos agravece
porque vos travou em vosso cantar
Joan'Eanes, vej'eu el queixar
de qual deosto lhi de vós recrece:
5u lhi fostes trobar de mal dizer
em tal guisa que bem pod'entender
quem quer o mal que a olho parece.
  
Por en partid'este feito de cedo,
ca de maldizer nom tirades prol;
10e como s'en Joan'Eanes dol,
já de vós perdeu vergonha e medo:
ca entend'el que se dev'a sentir
de mal dizer que a seu olho vir
que pode log'acertar com seu dedo.
  
15Pois sodes entendud'e [bom ra]vista,
sabed'agora catar tal razom
per que venha este feit'a perdom;
e por parardes milhor a conquista
outorgad'ora, senhor, que nos praz:
20se mal dizer no vosso cantar jaz
que o poedes tod'à nossa vista.


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Cancioneiros:

B 1313, V 918

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um que fora privado del-Rei, e quando estava mui bem do amor del-Rei, apoinham-lhe que era mui levantado como homem de mal recado e aas vezes, quando el-Rei nom fazia sa vontade, tornava mui manso e mui cordo e mui misurado.

Diss'hoj'el-rei: - Pois Dom Foão mais val
seendo pobre - o gram bem fazer
que lh'eu fiz sempre o faz ensandecer -,
se m'el bem quer, meus amigos, em tal
5       que me queira já mal, mal lhi farei
       padecer, e desensandecê-l'-ei.
  
Pois em pobreza nom sal de seu sem
e o bem fazer o torna sandeu,
por padecer o que nom padeceu,
10pero, meus amigos, diz que me quer bem,
       que me queira já mal, mal lhi farei
       padecer, e desensandecê-l'-ei.
  
Pois lhi Deus atal ventura deu
que em pobreza tod'o seu sem há
15e com bem fazer sandice lhi dá,
pero m'el quer bem e se tem por meu,
       que me queira já mal, mal lhi farei
       padecer, e desensandecê-l'-ei.


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Cancioneiros:

B 1314, V 919

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um escudeiro que havia nome Macia, que era escudeiro do Meestre d'Alcântara e veera a el-rei de Portugal com suas preitesias e dava-lhe a entender que levaria do Meestre d'Alcântara mui grand'algo; e el andava-lhi com mentira e pera levar del algo.

Pois cata per u m'espeite
com sas razões d'engano
e me quer meter a dano,
por end', antes que mo deite,
5       deitar quer'eu todavia
       o ma[s]tique a Dom Macia.
  
Pois me tenta de tal provo,
per que m'há já esperado,
eu, com'home de recado,
10em véspera d'Ano Novo,
       deitar quer'eu todavia
       o ma[s]tique a Dom Macia.
  
E pois ele, às primeiras,
quer de mim levar o meu,
15come engador judeu,
em vésperas de Janeiras,
       deitar quer'eu todavia
       o ma[s]tique a Dom Macia.


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Cancioneiros:

B 1315, V 920

Descrição:

Tenção

Mestria

- Vós, Dom Josep, venho eu preguntar:
pois pelos vossos judeus talhadores
vos é talhado, a grandes e meores,
quanto cada um judeu há de dar,
5per qual razom Dom Foam judeu,
a que já talha foi posta no seu,
s'escusa sempre de vosco reitar?
  
- [E]stêvam da Guarda, pode quitar
qual judeu quer de reitar os senhores,
10mais na talha, graças nem amores
num lhi faram os que ham de talhar;
e Dom Foam já per vezes deu
do que talharom, com'eu dei do meu,
er dará mais, e querrá-se livrar.
  
15- Dom Josep, tenho por sem razom,
pois já fam vosc', em talha, igualdade
(u do seu dem quanto lhi foi talhado),
que per senhores haja defensom
de nom peitar com'outro peitador,
20como peita qualquer talhador
quanto lhi talham, sem escusaçom.
  
- [E]stêvam da Guarda, per tal auçom
qual vós dizedes, foi já demandado
e foi per el seu feito desputado,
25assi que dura na desputaçom;
e do talho nom tem [i] o melhor,
ca deu gram peça; mais pois seu senhor
lha peita, quanto val tal quitaçom!
  
[...]
  
30- Já Dom Foam, por mal que mi quer, diz
que nego quant'hei, por nom peitar nada;
e de com'é mia fazend'apostada,
vós, Dom Estêvam, sodes en bem fiz
que nunca foi de mia talha negado,
35mais sabudo é, certo, apregoado,
quant'hei na terra, móvil e raíz.
  
- Dom Josep, já [or']eu certo fiz
que do vosso nom é rem sonegado,
mais é [a]tam certo e apreçado
40come o vinho forte em Alhariz;
e el queria de vós, des i arreigado,
de vos haver assi espeitado
com'hoj'el é pelo maior juiz.


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Cancioneiros:

B 1316, V 921

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um escudeiro que havia nome Martim Gil e era home mui feo.

Martim Gil, um homem vil
se quer de vós querelar:
que o mandastes atar
cruamente a um esteo,
5dando-lh'açoutes bem mil;
e aquesto, Martim Gil,
parece a todos mui feo.
  
Nõn'o posso end'eu partir,
pero que o já roguei,
10que se nom queix'end'a 'l-rei:
ca se sente tam maltreito
que nom cuida en guarir;
e, Martim Gil, quen'o vir,
parece mui lai, de feito.
  
15Tam cruamente e tam mal
diz que foi ferido entom
que teedes i cajom,
[se] s'el desto nom guarece;
é aquesto feito tal,
20Martim Gil, tam desigual,
ca já mui peior parece.


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Cancioneiros:

B 1317, V 922

Descrição:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Alvar Rodriguiz dá preço d'esforço
a est'infante mouro pastorinho
e diz que, pero parece menin[h]o,
que parar-se quer a tod'alvoroço;
5e maestr'Ali, que vejas prazer,
d'Alvar Rodriguiz punha de saber
se fode já este mouro tam moço.
  
Diz que per manhas e per seu sembrante
sab'el do mouro que hom'é comprido
10e pera parar-se a tod'arroído;
e que sabe que tal é seu talante;
e maestr'Ali, que moiras em fé,
d'Alvar Rodriguiz sab'ora como é
e se fode já este mour'infante.
  
15El diz do mouro que sabe que ten'o
seu coraçom em se parar a feito,
porque o cria e lhi sab'o jeito,
pero parece de corpo pequeno;
e maestr'Ali sab'i ora bem
20d'Alvar Rodriguiz, poilo assi tem,
se fode já este mouro tam neno.


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Cancioneiros:

B 1318, V 923

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Do que eu quigi, per sabedoria,
d'Alvar Rodriguiz seer sabedor
e dest'infante mouro mui pastor,
já end'eu sei quanto saber queria
5per maestr'Ali, de que aprendi
que lhi diss'Alvar Rodriguiz assi:
que já tempo há que o mouro fodia.
  
Com'el guardou de frio e de fome
este mouro, poilo tem em poder,
10mailo devera guardar de foder,
pois com el sempre alberga e come;
ca maestr'Ali jura per sa fé
que já d'Alvar Rodriguiz certo é
que fod'o mouro como fod'outr'home.
  
15Alá guarde tod'a prol, em seu seo,
Alvar Rodriguiz que por en tirar
daquesto mouro, que nom quis guardar
de seu foder, a que tam moço veo;
ca maestr'Ali diz que dias há
20que sabe d'Alvar Rodriguiz que já
fod'este mouro a caralho cheo.


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Cancioneiros:

B 1319, V 924

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Dizem, senhor, que um vosso parente
vos vem fazer de seus serviços conta
e dizer-vos, em maneira de fronta,
que vos serviu come leal servente;
5e se vos el aquesto vem frontar,
certa resposta lhi devedes dar,
       u disser que vos serviu lealmente.
  
Ca, se vos el quer fazer entendente
que vos serviu sem outra encoberta,
10per sa conta, que vem poer por certa,
em tal razom, aquant'é meu ciente,
certa resposta deve a levar
de vós, senhor, pois nom é de negar
       u disser que vos serviu lealmente.
  
15E pois el cuida fazer-vos creente
que vos serviu com'home de parage,
nom compre aqui resposta per message;
mais vós, senhor, com ledo contenente,
lhi devedes i logo a tornar
20certa resposta, sem já mais coidar,
       u disser que vos serviu lealmente.


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Cancioneiros:

B 1320, V 925

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Em tal perfia qual eu nunca vi,
vi eu Dom Foam com sa madr'estar;
e, porque os vi ambos perfiar,
cheguei-m'a el e dixi-lhi log'i:
5- Vencede-vos a quanto vos disser,
ca perfiardes nom vos é mester
com vossa madr'- e perfiar assi!
  
E disse-m'el: - Sempr'esto houvemos d'uso,
eu e mia madre, em nosso solaz,
10de perfiarmos eno que nos praz;
e quando m'eu de perfiar escuso,
assanha-se e diz-m'o que vos direi:
- Se nom perfias eu te maldirei
que sejas sempre maldito e confuso.
  
15E dix'eu: - Senhor, nom vos está bem
de perfiardes, mais está-vos mal
com vossa madr'. E diss'el: - Nem mi cal,
poilo ela por sa prol assi tem;
ca se lh'eu dig': - Al tenho de fazer -
20por bem ou mal tanto m'há-de dizer
que, na cima, perfiar me convém.
  
E parávoas nom ham de falecer;
mais tanto havemos de noite a seer
que é meiada ou mui preto en.


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Cancioneiros:

B 1321, V 926

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Se vós, Dom Foão, dizedes
que devêrades de casar
com molher de maior logar
que essa que vós teedes,
5dizedes i como vos praz:
ca pera vós, per bõa fé,
é ela, que tam bõa é,
       filha d'algo, e bem assaz.
  
Como quer que vós tenhades
10que, com bem fazer de senhor,
devêrades casar melhor,
senhor, nunca o digades;
ca, se filhárades em cós
mulher pera vós, tam igual
15pera ela, que tanto val,
       filha d'algo é pera vós.
  
Pois sodes tam bem casado,
nom devedes i al dizer,
mais a Deus muito gradecer
20casamento tam honrado;
ca, pera vós, pois que vos dam
gram preço d'home de bom sem,
é ela, u há tod'o bem,
       filha d'algo, e bem de pram.


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Cancioneiros:

B 1322, V 927

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um vilão rico que havia nome Roi Fáfez e feze-o el-rei Dom Afonso, filho del-rei Dom Denis, cavaleiro, a rogo de Miguel Vivas, eleito de Viseu, seu privado, porque casou com ũa sa sobrinha; e era calvo; e el empero fez um capeirom grande de marvi com pena veira e com alfreses, aberto per deante, e anchava-se pelas costas e pelos ombros todo arredor; e levava-o em cima da calva pera lhe parecer a pena veira.

O caparom de marvi
que vos a testa bem cobre
com pena veira tam nobre,
alfaiat'ou peliteiro,
5dized'ora, cavaleiro,
       cal vo-l'apostou assi?
  
Tal caparom vos convém
com tal pena que tragaes;
mais i, dos dous mesteiraes,
10me dized'o que vos digo,
cavaleiro, meu amigo:
       cal vo-l'apostou tam bem?
  
Do que é mais sabedor
de caperom empenado
15me dad'agora recado,
e nom seja encoberto
de como vós sodes certo:
       cal vo-l'apostou melhor?


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Cancioneiros:

B 1323, V 928/929
(C 1323)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Rubrica:

Estas cantigas de cima forom feitas a um jograr que se prezava d'estrólogo, e el nom sabia nada; e foi-se cercear, dizendo que haveria egreja, e fazer coroa, e [n]a cima ficou cerceado e nom houve egreja; e fezerom-lhe estas cantigas por en.

Já Martim Vaasques da estrologia
perdeu feúza, polo grand'engano
dos planetas, per que veo a dano
em que tam muito ante s'atrevia:
5ca o fezerom sem prol ordinhar
por egreja que lhe nom querem dar
e per que lh'é defes'a jograria.
  
E per [que] esto, per que ant'el vivia,
lh'é defeso, des que foi ordinhado,
10oimais se tem el por desasperado
da prol do mester e da clerezia:
e as planetas o tornaram fol,
sem egreja nem capela de prol
e sem o mester per que guarecia.
  
15E já de grado el renunçaria
sas ordĩins, per quant'eu hei apreso,
por lhe nom seer seu mester defeso
nem er ficar em tanta peioria,
como ficar por devaneador
20coroado e, o que é peor,
perder a prol do mester que havia.
  
E na coroa, que rapar queria,
leixa crecer a cient'o cabelo
e a vezes a cobre com capelo,
25o que ant'el mui d'anvidos faria;
mais del: quand'el a 'sperança perdeu
das planetas, des i log'entendeu
que per coroa prol nom tiraria.
  
E no seu livro, per que aprendeu
30astrologia, log'i prometeu
que nunca per el mais estudaria.


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Cancioneiros:

B 1324, V 930

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Com'aveo a Merlim de morrer
per seu gram saber que el foi mostrar
a tal molher, que o soub'enganar,
per essa guisa se foi confonder
5Martim Vasquez, per quanto lh'eu oí:
que o tem mort'ũa molher assi,
a que mostrou, por seu mal, seu saber.
  
E tal coita diz que lhe faz sofrer
no coraçom, que se quer afogar:
10nem er pode, u a nom vir, durar;
em torna d'i, o faz esmorecer
e, per saber que lh'el mostrou, o tem
tam coitado, que a morrer convém
de mort'estrãia que há padecer.
  
15E, o que lh'é mais grave de temer,
per aquelo que lh'el foi ensinar,
diz que sabe que o pod'ensarrar
em tal logar u convém d'atender
atal morte de qual morreu Merlim,
20u dará vozes, fazendo sa fim,
ca nom pod'el tal mort'estraecer.


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Cancioneiros:

B 1325, V 931

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Ora é já Martim Vaasques certo
das planetas que tragia erradas,
Mars e Saturno, mal aventuradas,
cujo poder trax em si encoberto:
5ca per Mars foi mal chagad'em peleja,
e per Saturno cobrou tal egreja
sem prol nẽũa, em logar deserto.
  
Outras planetas de boa ventura
achou per vezes em seu calandairo,
10mais das outras que lh'andam em contrairo,
cujo poder ainda sobr'el dura,
per ũa delas foi mui mal chagado
e pela outra cobrou priorado
u tem lazeira em logar de cura.
  
15El rapou barva e fez gram coroa
e cerceou seu topet'espartido
e os cabelos cabo do oído,
cuidand'haver per i egreja boa;
mais Saturno lha guisou de tal renda,
20u nom há pam nem vinho d'oferenda
nem, de herdade, milho pera boroa.
  
E pois el é prior de tal prevenda,
convém que leix'a cura e atenda
a capela igual a sa pessoa.


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Cancioneiros:

B 1326, V 932

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Pero el-rei há defeso
que juiz nom filhe peito
do que per ant'el há preito,
vedes o que hei apreso:
5       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'alg'e dá-lho.
  
Pero que é cousa certa
que el-rei pôs tal defesa,
ond'a bom juiz nom pesa,
10dizem que, per encoberta,
       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'algu'e dá-lho.
  
Pero em tod'home cabe,
em que há sem e cordura,
15que se aguarde tal postura,
vedes que diz quen'o sabe:
       quem s'ajudar quer do Alho
       barata d'algu'e dá-lho.
  
Em prata ou em retalho
20ou em dobras em bisalho.