Airas Nunes - Todas as cantigas

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Cancioneiros:

B 868/869/870, V 454
(C 868)

Descrição:

Cantiga de Pastorela

Refrão

Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
5e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".
  
E a pastor parecia mui bem,
10e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
15cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".
  
E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
20des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".
  
25Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
30"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
35ai bela frol?»".


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Cancioneiros:

B 871, V 455

Descrição:

Cantiga de Sirventês moral

Mestria

Porque no mundo mengou a verdade,
punhei um dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: - Alhur la buscade,
5 ca de tal guisa se foi a perder
que nom podemos en novas haver,
nem já nom anda na irmaindade.
  
Nos moesteiros dos frades negrados
a demandei, e disserom-m'assi:
10- Nom busquedes vós a verdad'aqui,
ca muitos anos havemos passados
que nom morou nosco, per bõa fé,
[nem sabemos u ela agora x'é,]
e d'al havemos maiores coidados.
  
15E em Cistel, u verdade soía
sempre morar, disserom-me que nom
morava i havia gram sazom,
nem frade d'i já a nom conhocia,
nem o abade outrossi, no estar,
20sol nom queria que foss'i pousar,
e anda já fora d[a] abadia.
  
Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
25muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado.


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Cancioneiros:

B 872, V 456

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Que muito m'eu pago deste verão,
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
5e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.
  
Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
10log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.
  
Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.


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Cancioneiros:

B 873/885bis, V 469, V 457

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Amor faz a mim amar tal senhor,
mais fremosa de quantas hoj'eu sei,
e faz-m'alegre e faz-me trobador
cuidand'em bem sempr'; e mais vos direi:
5u se pararom de trobar,
trob'eu e nom per antolhança,
mais por que sei mui lealmente amar.
       Pois mim amor nom quer leixar
       e dá-m'esforç'e asperança,
10       mal venh'a quem se del desasperar!
  
Ca per amor cuid'eu mais a valer;
e os que del desasperados som
nom podem nunca nẽum bem haver,
nem fazer bem. E per esta razom,
15com amor quero-me alegrar;
e quem tristur'ou mal andança
quer, nom lhe dê Deus al, pois s'en pagar.
       Pois mim amor nom quer leixar
       e dá-m'esforç'e asperança,
20       mal venh'a quem se del desasperar!
  
Cousecem mim os que amor nom ham
e nom cousecem si, vedes que mal!
Ca trob'e canto por senhor, de pram,
que sobre quantas hoj'eu sei mais val
25de beldad'e de bem falar,
e é cousida, sem dultança.
Atal am'eu e por seu quer'andar.
       Pois mim amor nom quer leixar
       e dá-m'esforç'e asperança
30       mal venh'a quem se del desasperar!


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Cancioneiros:

B 874, V 458

Descrição:

Cantiga de Amigo

Fragmento

A Santiag'em romaria vem
el-rei, madr', e praz-me de coraçom
por duas cousas, se Deus me perdom,
em que tenho que me faz Deus gram bem:
5ca ve[e]rei el-rei, que nunca vi,
e meu amigo, que vem com el i.
  
[...]


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Cancioneiros:

B 875/876/877/878, V 459/460/461

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Vi eu, senhor, vosso bom parecer,
por mal de mim e destes olhos meus,
e nom quis pois mia ventura, nem Deus,
nem vós, que podess'eu coita perder;
5e pois me vós nom queredes valer
       breu crey que sera ma vida,
       gentil dona, pois no.us vey,
       tan vos vey d'amor cabida.
  
Des que o vosso bom parecer vi,
10nunca pois.......................
..................................
..................................
..................................
       Bella, dolça rens,
15       Deus preu que vos praya
       s.us prendatz merces
       de mi, que joy aya.
  
Assi me tem em poder voss'amor
que sempre cuid'em como poderei
20vosso bem haver, que nom haverei,
mal pecado!, enquant'eu vivo for;
mais end'eu hei conort'e sabor:
       Gentil dona, tan m'etz cara
       que agaira mon vegir
25       quan veiray la vostra cara.
  
E d'Amor esto m'ampara:
lo gram sabor de servir
que hei, senom já m'el matara.


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Cancioneiros:

B 879, V 462

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão e Paralelística

Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
       se amigo amar,
5sô aquestas avelaneiras frolidas
       verrá bailar.
  
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
10       se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
       verrá bailar.
  
Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
15e quem bem parecer, como nós parecemos,
       se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
       verrá bailar.


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Cancioneiros:

B 880, V 463

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Par Deus, coraçom, mal me matades
e prol vossa nem minha nom fazedes,
e pouco, se assi for, viveredes;
e a senhor por que mi assi matades
5al cuida, ca nom no vosso cuidar.
Mal dia forom meus olhos catar
a fremosura por que me matades!
  
Ora que eu moiro, com quem ficades?
Vós com ela, par Deus, nom ficaredes,
10e, se eu moiro, migo morreredes,
ca vós noit'e dia migo ficades.
Mais vosso cuidado pode chegar
u est a dona que rem nom quer dar
por mim, ca sempre comigo ficades.


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Cancioneiros:

B 881, V 464

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão, dialogada

- Bailade hoje, ai filha, que prazer vejades,
ant'o voss'amigo, que vós moit'amades.
- Bailarei eu, madre, pois me vós mandades,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
5de viver el pouco moito vos pagades,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.
  
- Rogo-vos, ai filha, por Deus, que bailedes
ant'o voss'amigo, que bem parecedes.
- Bailarei eu, madre, pois mi o vós dizedes,
10       mais pero entendo de vós ũa rem:
de viver el pouco gram sabor havedes,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.
  
- Por Deus, ai mia filha, fazed'a bailada
ant'o voss'amigo de sô a milgranada.
15- Bailarei eu, madre, daquesta vegada,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
de viver el pouco sodes moi pagada,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.
  
- Bailade hoj', ai filha, por Santa Maria,
20ant'o voss'amigo, que vos bem queria.
- Bailarei eu, madre, por vós todavia,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
em viver el pouco tomades perfia,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.
  


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Cancioneiros:

B 882, V 465

Descrição:

Cantiga de Amor

Fragmento

Nostro Senhor! e por que foi veer
ũa dona que eu quero gram bem
e querrei sempre já mentr'eu viver,
e que me faz por si perder o sem?
5Pero ela faça quanto quiser
contra mim, já, pero me bem nom quer,
nom leixarei de a servir por en.
  
[...]


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Cancioneiros:

B 883, V 466

Descrição:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Desfiar enviarom ora de Tudela
filhos de Dom Fernando a el-rei de Castela.
E disse el-rei logo: - Ide alá, Dom Vela,
desfiad'e mostrade por mim esta razom:
5       se quiserem, por câmbio do reino de Leon,
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.
  
Ainda lhes fazede outra preitesia:
dar-lhes-ei por câmbio quanto hei em Lombardia,
e aquesto lhes faço por partir perfia;
10e faço gram dereito, ca meus sobrinhos som:
       se quiserem, por câmbio do reino de Leon,
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.
  
E veed'ora, amigos, se prend'eu engano!
E fazed'de guisa que seja sem meu dano:
15se quiserem trégoa, dade-lha por um ano;
outorgo-a por mim e por eles Dom Gastom;
       se quiserem, por câmbio do reino de Leon
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.


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Cancioneiros:

B 884, V 467

Descrição:

Cantiga de Amor

Mestria

Falei noutro dia com mia senhor
e dixe-lh'o mui grand'amor que lh'hei
e quantas coitas por ela levei
e quant'afã sofro por seu amor.
5Foi sanhuda e nunc'a tanto vi:
e foi-se e sol nom quis catar por mi,
e nunca mais pois com ela falei.
  
Mentr'eu com ela falava em al,
eu nunca molher tam bem vi falar;
10e pois lh'eu dixe a coita e o pesar
que por ela sofro e o mui gram mal,
foi sanhuda e catou-me em desdém;
e des ali nom lh'ousei dizer rem,
nem ar quis nunca pois por mi catar.
  
15E muitas vezes oí eu dizer:
"quisque[m] se coita há, costas lhe dá";
e eu receei esto grand'er'há;
mais porque me vejo em coitas viver
dixe-lh'o bem que lhe quer'e entom
20[e]stranhou-mi-o de guisa que sol nom
me quis falar; e de mi que será?


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Cancioneiros:

B 885, V 468

Descrição:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
5que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
  
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
10E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
  
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
15nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"


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Cancioneiros:

B 1601, V 1133
(C 1601)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Achou-s'um bispo que eu sei um dia
cõn'o eleit'e sol nom lhe falou;
e o eleito se maravilhou,
e foi a el e assi lhe dizia:
5- Que bispo sodes, se Deus vos perdom,
que passastes ora per mim e nom
me falastes e fostes vossa via?
  
E diz o bispo: - Nom vos conhocia,
se Deus me valha, ca des que naci
10nunca convosco falei nem vos vi,
e assi conhocer nom vos podia;
e por en, se me algur convosco achar
e vos nom conhocer, nem vos falar,
nom mi o tenhades vós por vilania.
  
15E di'lo eleit': - Assi Deus me valha,
[já todos aqui] m'ham de conhocer;
e o que o assi nom quer fazer
nom é bispo nem val ũa mealha;
e vós tal bispo sodes, cuido-m'eu,
20que nom sabedes quem me sõo eu,
nem [dades por mi] valor d'ũa palha.
  
E diz o bispo: - ........, sem falha;
por todas ........................[em]
nem quero vosso mal nem vosso bem,
25nem ar entendo que per vós .....[alha];
e aqueste ...........................ei
per ...............................[ei]
nem m'a.................[nemi]galha.