Juião Bolseiro


Que olhos som que vergonha nom ham,
dized', amigo, doutra, ca meu nom,
e dized'ora, se Deus vos perdom:
pois que vos já com outra preço dam,
5       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?
  
Ca vós bem vos devía[des] nembrar
em qual coita vos eu já por mi vi,
fals', e nembra[r]-vos qual vos fui eu i;
10mais, pois com outra fostes começar,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?
  
Par Deus, falso, mal se mi gradeceu,
quando vós houvérades de morrer
15se eu nom fosse, que vos fui veer;
mais, pois vos outra já de mim venceu,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?
  
Nom mi há mais vosso preito mester,
20e ide-vos já, por Nostro Senhor,
e nom venhades nunca u eu for;
pois começastes com outra molher,
       com[o] ousastes viir ant'os meus
       olhos, amigo, por amor de Deus?



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Nota geral:

Zangada, a donzela dirige palavras duras ao seu amigo: como ousa ele aparecer diante dela e olhá-la nos olhos com os seus olhos sem vergonha, quando arranjou outra, segundo dizem? Não se lembra ele o quanto sofria por ela, a ponto de morrer, e o que ela então tinha feito por ele, indo ao seu encontro? Pois além de falso é ingrato, tudo está acabado entre eles, e a única coisa que ele deve fazer é ir-se embora e nunca mais lhe aparecer à frente.
Sendo certo que uma cantiga anterior refere o encontro aqui aludido, é possível que ambas façam parte de um mesmo ciclo.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amigo
Refrão
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1170, V 776

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1170

Cancioneiro da Vaticana - V 776


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas