Fernando Esquio - Todas as cantigas

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Cancioneiros:

B 1294
(C 1294)

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Amor, a ti me ven[h]'ora queixar
de mia senhor, que te faz enviar,
cada u dórmio, sempre m'espertar
e faz-me de gram coita sofredor.
5Pois m'ela nom quer veer nem falar,
       que me queres, Amor?
  
Este queixume te venh'or dizer:
que me nom queiras meu sono tolher
pola fremosa do bom parecer
10que de matar home sempr'há sabor.
Pois m'ela nẽum bem quis[o] fazer,
       que me queres, Amor?
  
Amor, castiga-te desto por en:
que me nom tolhas meu sono por quem
15me quis matar e me teve em desdém
e de mia morte será pecador.
Pois m'ela nunca quiso fazer bem,
       que me queres, Amor?
  
Amor, castiga-te desto por tal:
20que me nom tolhas meu sono por qual
me nom faz bem [e sol me faz gram mal]
e mi o [fará], desto [som] julgador.
Poilo seu bem cedo coita mi val,
       que me queres, Amor?


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Cancioneiros:

B 1295, V 899

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão

O vosso amigo, assi Deus m'empar,
vi, amiga, de vós muito queixar,
das grandes coitas que lhe fostes dar
       des que vos el vira
  
5[p]olo seu mal vos filhou por senhor
e, amiga, sodes del pecador,
e diz que morte lhe foi voss'amor
       des que vos el vira
  
polo seu mal, e queixou-se-m'ende,
10ca el morre e de vós nunca atende
senom coitas que sofre por ende
       des que vos el vira
  
grandes [...]


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Cancioneiros:

B 1296, V 900

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Senhor, por que eu tant'afã levei,
gram sazom há, por Deus, que vos nom vi;
e pero mui longe de vós vivi,
nunca aqueste verv'antig'achei:
5       "Quam longe d'olhos, tam longe de coraçom".
  
A minha coita, por Deus, nom há par
que por vós levo sempr'e levarei;
e pero mui longe de vós morei,
nunca pude este verv'antig'achar:
10       "Quam longe d'olhos, tam longe de coraçom".
  
E tam gram coita d'amor hei migo
que o nom sabe Deus, mal pecado!
Pero que vivo muit'alongado
de vós, nom acho este verv'antigo:
15       "Quam longe d'olhos, tam longe de coraçom".


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Cancioneiros:

B 1297, V 901
(C 1297)

Descrição:

Cantiga de Amigo

Mestria

O voss'amigo trist'e sem razom
vi eu, amig', [e] mui pouc'o per hei,
e preguntei-o porquê e nom sei
del se nom tanto que me disse entom:
5des que el vira ũa sa senhor
ir d'u el era, fora sofredor
de grandes coitas no seu coraçom.
  
Tam trist'estava que bem entender
pode quem quer que o vir que trist'é
10e preguntei-o, mais, per boa fé,
nom pud'eu del mais d'atanto aprender:
des que el vira ũa que quer bem
ir d'u el era, por dereito tem,
'tá que a vir, de nom tomar prazer.
  
15Da sa tristeça houv'eu tal pesar
que foi a el e preguntei assi:
"em que coidava?", mais nom aprendi
del senom tanto que lhi oí falar:
des que el vira quem lhi coitas deu
20ir d'u el era, no coraçom seu,
tá que a vir, ledo nom pod'andar.
  
E entom pode perder seu pesar
da que el vira ir, veer tornar.


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Cancioneiros:

B 1298, V 902

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão e Paralelística

Vaiamos, irmana, vaiamos dormir
nas ribas do lago u eu andar vi
       a las aves meu amigo.
  
Vaiamos, irmana, vaiamos folgar
5nas ribas do lago u eu vi andar
       a las aves meu amigo.
  
Nas ribas do lago u eu andar vi,
seu arco na mãao as aves ferir,
       a las aves meu amigo.
  
10Nas ribas do lago u eu vi andar,
seu arco na mãao a las aves tirar,
       a las aves meu amigo.
  
Seu arco na mano as aves ferir
e las que cantavam leixa-las guarir,
15       a las aves meu amigo.
  
Seu arco na mano a las aves tirar
e las que cantavam non'as quer matar
       a las aves meu amigo.


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Cancioneiros:

B 1299, V 903

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão, dialogada

- Que adubastes, amigo, alá em Lug'u andastes,
ou qual é essa fremosa de que vos vós namorastes?
- Direi-vo-lo eu, senhora, pois m'en tam bem preguntastes:
       o amor que eu levei de Santiago a Lugo,
5       esse me aduga e esse mi adugo.
  
- Que adubastes, amigo, u tardastes noutro dia,
ou qual é essa fremosa que vos tam bem parecia?
- Direi-vo-lo [eu], senhora, pois i tomastes perfia:
       o amor que eu levei de Santiago a Lugo,
10       esse me aduga e esse mi adugo.
  
- Que adubastes, amigo, lá u havedes tardado,
ou qual é essa fremosa de que sodes namorado?
- Direi-vo-lo eu, senhora, pois me havedes preguntado:
       o amor que eu levei de Santiago a Lugo,
15       esse m aduga e esse mi adugo.


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Cancioneiros:

B 1604, V 1136
(C 1604)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

A um frade dizem escaralhado,
e faz pecado quem lho vai dizer,
ca, pois el sabe arreitar de foder,
cuid'eu que gai é, de piss'arreitado;
5e pois emprenha estas com que jaz
e faze filhos e filhas assaz,
ante lhe dig'eu bem encaralhado.
  
Escaralhado nunca eu diria,
mais que traje ante caralho ou veite,
10ao que tantas molheres de leite
tem, ca lhe parirom três em um dia,
e outras muitas prenhadas que tem;
e atal frade cuid'eu que mui bem
encaralhado per esto seria.
  
15Escaralhado nom pode seer
o que tantas filhas fez em Marinha
e que tem ora outra pastorinha
prenhe, que ora quer encaecer,
e outras muitas molheres que fode;
20e atal frade bem cuid'eu que pode
encaralhado per esto seer.


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Cancioneiros:

B 1604bis, V 1137

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

A vós, Dona abadessa,
de mim, Dom Fernand'Esquio,
estas doas vos envio,
porque sei que sodes essa
5dona que as merecedes:
quatro caralhos franceses
e dous aa prioressa.
  
Pois sodes amiga minha
nom quer'a custa catar,
10quero-vos já esto dar
ca nom tenho al tam aginha:
quatro caralhos de mesa
que me deu ũa burguesa,
dous e dous ena bainha.
  
15Mui bem vos semelharám
ca sequer levam cordões
de senhos pares de colhões;
agora vo-los darám:
quatro caralhos asnaes,
20enmanguados em coraes
com que calhedes a mam.


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Cancioneiros:

B 1607, V 1140

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Disse um infante ante sa companha
que me daria besta na fronteira,
e nom será já murzela nem veira,
nem branca, nem vermelha, nem castanha;
5pois amarela nem parda nom for,
a pram será a Besta Ladrador
que lh'adurám do reino de Bretanha.
  
E tal besta como m'el há mandada
nom foi homem que lhe visse as semelhas;
10nem tem rosto, nem olhos, nem orelhas,
nem é gorda, nem magra, nem delgada,
nem é ferrada, nem é por ferrar,
nem foi homem que a visse enfrear,
nem come erva, nem palha, nem cevada.
  
15Atal besta mi há mandada este infante;
[e] bem vo-lo juro, amigo[s], sem falha,
nom sei eno mundo haver que a valha:
nom vai à saga, nem vai adeante,
e tem, vos juro par Nostro Senhor,
20mais al: que pois nós morrermos, nom for
nom............... e forom..........[-ante]
  
Tal rapaz que lh'há mester desta besta,
eu cuido bem que lho tenham achado:
que, prol nem coita [............. ado],
25que a seu dono ...............[esta]
e nom ande triste nem ande ledo,
nem vaa deante, nem a derredo,
e nunca cômia, nem beva, nem vesta.