Martim Moxa


Em muit'andando, cheguei a logar
u lealdade, nem manha, nem sem,
 nem crerezia nom vejo preçar,
nem pod'hom'i de senhor gaar rem
5se nom loar quanto lhi vir fazer,
 e lousin[h]ar e rem nom lhi dizer
pero lhi veja o sal semear.
  
E quem ali, com'eu cheguei, chegar
 se[m] mentir, e nem tever mal por bem,
 10quitar-s'-á en, com'eu vi mim quitar,
mais nom com'end'eu vi quitar alguém
(nem quem nem como, nom quero dizer);
e vi alhur quem mentiral seer
nom quer nem pode, nem bom prez leixar.
  
  15Mentr'ali foi, tal sonh'houvi a sonhar
muitas vezes; e no sonho, vi quem?
Vi a bubela a cerzeta filhar,
 e a[a] bubel'a crista que tem.
E a cerzeta, o que quer dizer?
20Ou com'a pode bubela prender?
Este sonho, quen'o pode soltar?



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Nota geral:

Outro curioso sirventês moral sobre o estado do mundo, que tem a particularidade de terminar com um sonho profético com duas aves, em forma de enigma para o ouvinte ou o leitor descodificar, e cuja interpretação tem dado origem a alguma discussão. Muito embora o texto manuscrito da estrofe onde esse sonho é descrito (a terceira) levante alguns problemas de leitura (que discutimos nas notas), a imagem que Martim Moxa nos propõe para decifração será a de uma pequena ave (a bubela, ou poupa) atacando e vencendo uma maior (a cerzeta, que será a garça), Esta leitura não só é mais lógica enquanto enigma, mas vai ao encontro das conotações medievais das duas aves, as da poupa negativas e as da garça, uma ave aquática, positivas. De facto, o conhecido Livro das aves1 (de que há, pelo menos, três cópias medievais portuguesas), diz-nos sobre a poupa: "Ave muito porca, coroada com uma crista erguida, anda sempre sobre sepulcros e esterco humano", acrescentando que "esta ave representa os malvados pecadores que constantemente se deliciam com a imundície do pecado". Já sobre a garça diz-nos: "Esta ave pode indicar as almas dos eleitos que, receando as tentações deste mundo, para não se envolverem por instigação do Demónio em tempestades de perseguições, elevam os seus desígnios acima de todas as coisas temporais e as suas mentes até à serenidade da pátria celeste, onde sempre se avista o rosto de Deus". Não é difícil, pois, pressupor que é a partir deste valores símbólicos que Martim Moxa constrói o seu enigma.
Acrescente-se que é ainda provável, como pensa Stegagno Picchio2, que o sirventês, por detrás desta simbologia e da sua linguagem moral abstrata, aluda a situações político-sociais bem mais concretas (a "crista" da poupa podendo, por exemplo, ser uma coroa, e a ave representando a figura de um monarca).

Referências

1 Gonçalves, Maria Isabel Rebelo (Ed.) (1999), Livro das Aves, Lisboa, Edições Colibri.

2 Stegagno Picchio, Luciana (1968), Martin Moya. Le Poesie, Roma.



Nota geral


Descrição

Sirventês moral
Mestria
Cobras uníssonas
Palavra(s)-rima: imperf. (v. 6 em I, 5 em II e III):
dizer
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 915, V 502
(C 915)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 915

Cancioneiro da Vaticana - V 502


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas