Afonso X


Se me graça fezesse este Papa de Roma!
 Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
 que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
 mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
5       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.
  
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
10que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.
  
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
15fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.



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Nota geral:

Este ataque direto ao Papa terá como pano de fundo algum dos vários conflitos surgidos entre a Coroa e o Papado, a propósito da nomeação de bispos e arcebispos. Acusando essencialmente o Papa de roubo, Afonso X parece situar-se claramente na linha de muitos soberanos peninsulares que, a braços com a chamada guerra de Reconquista cristã, aceitavam mal os tributos exigidos pela Santa Sé, a qual, em troca, interferia demasiado, a seu ver, em assuntos que consideravam de mera política interna.
Quanto ao conflito concreto na origem da cantiga, sugeriu Carolina Michaelis, e, na sua sequência, a generalidade dos investigadores, que a questão teria a ver com a designação do novo arcebispo de Santiago de Compostela, após a morte de D. João Airas em 1266. O problema arrastou-se durante vários anos, e o bispo de Coimbra, D. Egas Fafes, nomeado para o cargo por Clemente IV, acabou por morrer em Montpellier, em 1268, sem nunca chegar efetivamente a tomar posse. Em 1273, o papa Gregório X retomou o caso, nomeando para o arcebispado D. Gonçalo Gómez, o qual foi rejeitado novamente pelo rei (e pelos burgueses de Santiago), sendo obrigado a exilar-se (e regressando apenas por volta de 1280, no momento da sublevação do infante herdeiro D. Sancho). Uma vez que as relações de Afonso X com a Igreja parece terem sido relativamente pacíficas na primeira parte do seu reinado, tudo indica, pois, que a cantiga datará da época da nomeação de D. Gonçalo, que coincide, aliás, com um dos momentos críticos do reinado do Rei Sábio, a rebelião dos ricos-homens castelhano-leoneses (1272-1274).



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Refrão
Cobras singulares
Palavra(s)-rima: imperf. (v. 4, II e III)
capa
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 463

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 463


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas