Pero da Ponte


Aos mouros que aqui som
 Dom Álvaro rem nom lhis dá,
  mais manda-lhis filhar raçom
da cachaça, e dar-lhis [nom] há
5do al que na cozinh'houver;
mais o mouro que mi crever
a cachaça nom filhará.
  
Mais, se lha derem, log'entom
aos cães a deitará,
10e direi-vos por qual razom:
 ca nunca xe lhi cozerá;
e a cachaça nom há mester,
pois que se [lhi] nom cozer
a quanta lenha no mund'há.
  
15Nen'os mouros, a meu cuidar,
poila virem, non'a querrám;
mais, se a quiserem filhar,
direi-vos como lhi farám:
i-la-am logo remolhar,
 20ca assi soem adubar
a cachaça, quando lha dam.



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Nota geral:

Mais outro cerrado equívoco, desta vez na sátira a um rico-homem pelintra. A cantiga gira à volta do termo cachaça, que é, de um ponto de vista alimentar, a cabeça de porco salgada. Seria esse o único alimento que este D. Álvaro dava aos seus serviçais mouros. Mas a expressão "dar cachaça" significará aqui também "dar tareia" (de cachaço, ou cachação). Aliás, o remédio final referido, o "pôr de molho", condiz bem com o único tratamento que os pobres mouros encontrariam para a cachaça que o rico-homem lhes dava.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras doblas
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Fontes manuscritas

B 1654, V 1188

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1654

Cancioneiro da Vaticana - V 1188


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas