D. Dinis


 Joam Bolo jouv'em ũa pousada
bem des ogano que da era passou,
com medo do meirinho, que lh'achou
  ũa mua que tragia negada;
 5pero diz el que se lhi for mester
que provará ante qual juiz quer
que a trouxe sempre dês que foi nada.
  
Esta mũa pod'el provar por sua,
que a nom pod'home dele levar
10pelo dereito, se a nom forçar,
ca moram bem cento naquela rua,
per que el poderá provar mui bem
que aquela mua, que ora tem,
que a teve sempre, mentre foi mua.
  
15Nõn'a perderá se houver bom vogado,
 pois el pode per enquisas põer
como lha virom criar e trager
 em cas sa madr[e], u foi el criado;
e provará per maestre Reinel
20que lha guardou bem dez meses daquel
cerro, ou bem doze, que trag'inchado.



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Nota geral:

Primeira de um pequeno ciclo de três cantigas onde D. Dinis satiriza um tal João Bolo a propósito de um negócio de cavalos e mulas. As três composições, que foram tradicionalmente lidas de uma forma inocente, jogam, de facto, com um cerrado equívoco erótico, baseado no duplo sentido que o termo mula tinha na época (amante ou barregã), como bem demonstrou Elsa Gonçalves1.
Nesta primeira composição, João Bolo defende-se da suposta acusação de ter roubado a sua "mula", argumentando que desde sempre ela lhe tinha pertencido, mesmo desde casa da sua mãe. Nas restantes cantigas, onde à mula se junta um cavalo, parece haver ainda referências a relações homossexuais.

Referências

1 Gonçalves, Elsa (1991), "A mula de Joan Bolo", in Poesia de rei: três notas dionisinas, Lisboa, Edições Cosmos.



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1535
(C 1535)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1535


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas