Martim Soares

Rubrica:

 

Esta outra cantiga fez d'escarnho a um que diziam Joam Fernández, e semelhava mouro, e jogavam-lh'ende e diss'assi.


Joam Fernándiz, um mour'est aqui
fugid', e dizem que vó'lo havedes;
e fazed'ora [a]tanto por mi,
se Deus vos valha: que o mooredes,
5ca vo-lo iram da pousada filhar;
e se vós virdes no mouro travar,
sei eu de vós que vos assanharedes.
  
Levad'o mour'e ide-vos daqui,
poil'a seu don'entregar nom queredes,
10e jurarei eu que vo-lo nom vi,
em tal que vós con'o mour'escapedes,
ca hei pavor d'irem vosco travar;
 e quero-m'ant'eu por vós perjurar
 ca vós por mouro mao pelejedes.
  
15Siquer meaçam-vos agor'aqui
por este mouro que vosco tragedes,
e juram que, se vos acham assi
mour'ascondudo, com'est'ascondedes,
se o quiserdes um pouc'emparar,
 20ca vo-lo iram sô o manto cortar,
 de guisa que vos sempr'en doeredes.



 ----- Aumentar letra

Nota geral:

Na usual forma do equívoco, Martim Soares junta-se às zombarias contra o "mouro" João Fernandes, personagem difícil de localizar, mas cujo aspeto físico (semelhava mouro, como nos diz a rubrica) deu origem a um pequeno ciclo de cantigas, em que intervieram igualmente João Soares Coelho e Rui Gomes de Briteiros, composições essas que a mesma rubrica claramente classifica como brincadeiras ("e jogavam-lh´ende" - brincavam com ele por causa disso). O equívoco aqui diz respeito à identidade do mouro fugitivo alegadamente refugiado em sua casa.
A troça de Martim Soares prolonga-se na cantiga seguinte.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras uníssonas
Palavra(s)-rima: (v. 1 de cada estrofe)
(d)aqui
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1367, V 975

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1367

Cancioneiro da Vaticana - V 975


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas