Pero Gomes Barroso - Todas as cantigas

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Cancioneiros:

A 222, B 392, V 2

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Quand'eu, mia senhor, convosco falei
e vos dixe ca vos queria bem,
senhor, se Deus me valha, fiz mal sem;
e per como m'end'eu depois [mal] achei,
5       bem entendi, fremosa mia senhor,
       ca vos nunca poderia maior
  
pesar dizer; mais nom pud'eu i al,
mia senhor, se Deus me valha, fazer
e fui-vo-lo com gram coita dizer;
10mais, per com'eu depois m'end'achei mal
       bem entendi, fremosa mia senhor,
       ca vos nunca poderia maior
  
pesar dizer; e mal dia naci,
porque vos fui dizer tam gram pesar
15e porque m'end'eu nom pudi guardar;
ca, por quanto depois por en perdi,
       bem entendi, fremosa mia senhor,
       ca vos nunca poderia maior
  
pesar dizer do que vos dix'entom;
20mais, se menti, já Deus nom me perdom.


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Cancioneiros:

A 223, B 393, V 3

Descrição:

Cantiga de Amor

Refrão

Por Deus, senhor, tam gram sazom
nom cuidei eu a desejar
vosso bem, a vosso pesar;
e vedes, senhor, por que nom:
5       ca nom cuidei, sem vosso bem,
       tanto viver, per nulha rem.
  
Nem ar cuidei, des que vos vi,
o que vos agora direi:
mui gram coita que por vós hei
10sofrê-la quanto a sofri;
       ca nom cuidei, sem vosso bem,
       tanto viver, per nulha rem.
  
Nem ar cuidei depois d'amor
a sofrer seu bem nem seu mal,
15nem de vós, nem de Deus, nem d'al;
e direi-vos, por quê, senhor:
       ca nom cuidei, sem vosso bem,
       tanto viver, per nulha rem.


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Cancioneiros:

B 732, V 333
(C 732)

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão

Amiga, quero-vos eu já dizer
o que mi diss[e] o meu amigo:
que morre quando nom é comigo,
cuidando sempre no meu parecer;
5       mais eu nom cuido, se el cuidasse
       em mi, que tanto sem mi morasse.
  
Nunca lhi já creerei nulha rem,
pois tanto tarda, se Deus mi perdom,
e diz ca morre desto, ca d'al nom,
10cuidand'em quanto mi Deus fez de bem;
       mais eu nom cuido, se el cuidasse
       em mi, que tanto sem mi morasse.
  
Porque tam muito tarda desta vez,
seu pouc'e pouco se vai perdendo
15comig', e diz el que jaz morrendo,
cuidand'em quam fremosa me Deus fez;
       mais eu nom cuido, se el cuidasse
       em mi, que tanto sem mi morasse.
  
E nom sei rem porque el ficasse
20que nom veesse, se lh'eu nembrasse.


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Cancioneiros:

B 733, V 334

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão

O meu amigo que é com el-rei
[.......................] bem sei
       ca nunca bem no mundo pod'haver,
pois eu, fremosa, tam muito bem hei,
5       senom viver mig'enquanto viver.
  
Punh'el-rei ora de lhi fazer bem,
e quanto x'el quiser, tanto lhi dem,
       ca nunca bem no mundo pod'haver,
se Deus mi valha, que lhi valha rem,
10       se nom viver mig'enquanto viver.
  
Façam-lh'ora quant'el quiser, e nom
more comigo, se Deus mi perdom,
       ca nunca bem no mundo pod'haver,
nem gram prazer eno seu coraçom,
15       se nom viver mig'enquanto viver.
  
Nem gram pesar quantos no mundo som
nom lho farám, se lh'eu fezer prazer.


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Cancioneiros:

B 734, V 335

Descrição:

Cantiga de Amigo

Refrão

Direi verdade, se Deus mi perdom:
o meu amigo, se mi quer gram bem,
nom lho gradesco, e, mais doutra rem,
gradesc'a Deus eno meu coraçom
5       que m'el fremosa fez tant'e mi deu
       tanto de bem quanto lhi pedi eu.
  
Se m'el quer bem, como diz ca mi quer,
el faz guisad', [e] eu, polo fazer,
nom lho gradesco, e hei que gradecer
10a Deus já sempr[e] o mais que poder
       que m'el fremosa fez tant'e mi deu
       tanto de bem quanto lhi pedi eu.
  
Se m'el quer bem, nom lho quer'eu nem mal,
nem ar hei [rem] que lhi gradesca i,
15mas quant'hoj'eu no meu espelho vi
gradesc'a Deus muit'e gradesco-lh'al:
       que m'el fremosa fez tant'e mi deu
       tanto de bem quanto lhi pedi eu.


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Cancioneiros:

V 592/593
(C 1003)

Descrição:

Cantiga de Sirventês moral

Refrão

Do que sabia nulha rem nom sei,
polo mundo, que vej'assi andar;
e quand'i cuido, hei log'a cuidar,
per boa fé, o que nunca cuidei:
5       ca vej'agora o que nunca vi
       e ouço cousas que nunca oí.
  
Aquesto mundo, par Deus, nom é tal
qual eu vi outro, nom há gram sazom;
e por aquesto, no meu coraçom,
10aquel desej'e este quero mal:
       ca vej'agora o que nunca vi
       e ouço cousas que nunca oí.
  
E nom receo mia morte por en
e, Deus lo sabe, queria morrer;
15ca nom vejo de que haja prazer
nem sei amigo de que diga bem:
       ca vej'agora o que nunca vi
       e ouço cousas que nunca oí.
  
E se me a mim Deus quisess'atender,
20per boa fé, ũa pouca razom,
eu post'havia no meu coraçom
de nunca jamais nẽum bem fazer:
       ca vej'agora o que nunca vi
       e ouço cousas que nunca oí.
  
25E nom daria rem por viver i
en'este mundo mais do que vivi.


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Cancioneiros:

B 1441, V 1051
(C 1441)

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Pero Lourenço, comprastes
ũas casas, e mercastes
delas mal, pero catastes
ant'as casas; e por en,
5par Deus, vós vos enganastes,
       que as nom catastes bem.
  
Pois vos nom derom i horto
per entrada, [já] de morto
vos tenh'hoj'eu; mais conorto
10hei de vós, per ũa rem
que se jaz em vosso torto:
       que as nom catastes bem.
  
Se vós, come home dereito,
as paredes e o teito
15catássedes, gram proveito
vos houvera, a meu sem;
vós sofred'end'o despeito,
       que as nom catastes bem.
  
Pois nom vistes i cortinha,
20nem paaço, nem cozinha,
rependestes-vos asinha;
mais ora que prol vos tem?
A pagar é a farinha,
       que as nom catastes bem.


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Cancioneiros:

B 1441bis, V 1052

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Moir'eu aqui d'adessoriam
e dizem ca moiro d'amor;
e haveria gram sabor
de comer, se tevesse pam;
5e, amigos, direi-vos al:
moir'eu do que em Portugal
morreu Dom Ponço de Baiam.
  
E quantos m'est'a mi dit'ham,
que nom posso comer d'amor,
10dê-lhis Deus [a]tam gram sabor
com'end'eu hei; e v[e]erám
que há gram coita de comer
quem dinheiros nom pod'haver
de que o compr'e nom lho dam.


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Cancioneiros:

B 1442, V 1053

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Sei eu um ric'home, se Deus mi perdom,
que traj'alférez e trage pendom;
       e com tod'est', assi mi venha bem,
       nom pod'el-rei saber, per nulha rem,
5       quando se vai, nem sabe quando vem.
  
E trage tenda e trage manjar
e sa cozinha, u faz seu jantar;
       e com tod'est', assi mi venha bem,
       nom pod'el-rei saber, per nulha rem,
10       quando se vai, nem sabe quando vem.
  
Trage repost'e trag'escançam
e traz saquiteiro, que lhi dá pam;
       e com tod'est', assi mi venha bem,
       nom pod'el-rei saber, per nulha rem,
15       quando se vai, nem sabe quando vem.
  
Trage seu leito e seu cobertor
e jograrete, de que há sabor;
       e com tod'est', assi mi venha bem,
       nom pod'el-rei saber, per nulha rem,
20       quando se vai, nem sabe quando vem.


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Cancioneiros:

B 1443, V 1054

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Um ric'home que hoj'eu sei,
que na guerra nom foi aqui,
vem mui sanhudo e diz assi
como vos agora direi:
5       diz que tem terra qual pediu,
       mais, porque a nunca serviu,
há mui gram querela d'el-rei.
  
El veo, se Deus mi perdom,
des que viu que era paz
10- [e] bem lhe venha, se bem faz!
Pero mostra el tal razom:
       diz que tem terra qual pediu,
       mais, porque a nunca serviu,
contra el-rei anda mui felom.
  
15Pero na guerra nom fez bem
nem mal, que nom quis i viir,
com coita d'el-rei nom servir,
pero mostra el ũa rem:
       diz que tem terra qual pediu,
20       mais, porque a nunca serviu,
a 'l-rei quer mui gram mal por en.
  
Sanhudo vem contr'el-rei já,
ca, u foi mester, nom chegou;
e mais de mil vezes jurou
25que da terra nom sairá:
       diz que tem terra qual pediu,
       mais, porque a nunca serviu,
al rei por en gram mal querrá.


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Cancioneiros:

B 1444, V 1055

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Chegou aqui Dom Foam e veo mui bem guisado;
pero nom veo ao maio, por nom chegar endoado,
       demos-lhi nós ũa maia,
       das que fezemos no maio.
  
5Per boa fé, bem guisado chegou aqui Dom Foam;
pero nom veo no maio, mais, por nom chegar em vão,
       demos-lhi nós ũa maia,
       das que fezemos no maio.
  
Porque veo bem guisado, com tenda e com reposte,
10pero nom veo en'o maio, nem veo a Pintecoste,
       demos-lhi nós ũa maia
       das que fezemos no maio.
  
Pois trage reposte e tenda, em que se tenha viçoso,
pero nom veo no maio, por nom ficar perdidoso,
15       demos-lhi nós ũa maia,
       das que fezemos no maio.
  


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Cancioneiros:

B 1445, V 1056

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Refrão

Meu senhor, direi-vos ora:
pela carreira de Mora,
u vós já pousastes fora
e convosco os de Touro,
5e pero que alguém chora,
       tragu'eu o our'e o mouro.
  
Pero nom vos custou nada
mia ida nem mia tornada,
grad'a Deus, com mia espada
10e com meu cavalo louro,
bem da vila de Graada
       tragu'eu o our'e o mouro.
  
Meu senhor, que vos semelha
do que xe vos 'carapelha
15e vos anda na orelha
rogindo come abesouro?
[...] Roi Gomes de Telha
       trag'[i] o our'e o mouro!


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Cancioneiros:

B 1446, V 1057

Descrição:

Cantiga de Escárnio e maldizer

Mestria

Pero d'Ambroa, se Deus mi perdom,
nom vos trobei da terra d'Ultramar,
vedes por quê: ca nom achei razom
por que vos dela podesse trobar,
5pois i nom fostes; mais trobar-vos-ei
de muitas cousas que vos eu direi:
do que vos vós nom sabedes guardar.
  
Se Deus mi valha, vedes por que nom
vos trobei d'Acri nem desse logar:
10porque nom virom quantos aqui som
que nunca vós passastes além mar.
E da terra u nom fostes nom sei
como vos trobe i, mais saber-vos-ei
as manhas, que vós havedes, contar.
  
15[...]