Gonçalo Anes do Vinhal


Quand'eu sobi nas torres sôbe'lo mar
 e vi onde soía a bafordar
o meu amig', amigas, tam gram pesar
houv'eu entom por ele no coraçom,
5quand'eu vi estes outros per i andar,
       que a morrer houvera por el entom.
  
 Quand'eu catei das torres [a] derredor
e nom vi meu amig[o] e meu senhor,
que hoje por mi vive tam sem sabor,
10houv'eu entom tal coita no coraçom,
quando me nembrei del e do seu amor,
       que a morrer houvera por el entom.
  
 Quand'eu vi esta cinta que m'el leixou
chorando com gram coita, e me nembrou
15a corda da camisa que m'el filhou,
houv'i por el tal coita no coraçom,
  pois me nembra, fremosa, u m'enmentou,
       que a morrer houvera por el entom.
  
Nunca molher tal coita houv'a sofrer
20com'eu, quando me nembra o gram prazer
que lh'eu fiz, u mi a cinta vẽo cinger,
[e] creceu-mi tal coita no coraçom,
quand'eu sobi nas torres polo veer,
       que a morrer houvera por el entom.



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Nota geral:

Expressiva cantiga, que nos coloca no cenário bem concreto de uma cidade marítima fortificada, com as suas altas torres de vigia (Sevilha?), onde os homens de armas se treinam em jogos militares (o bafordo). Aqui é a donzela que passeia, solitária, entre os soldados das muralhas, percorrendo os lugares onde o seu amigo já não está, e recordando os momentos de amor ali passados e as prendas que então tinham trocado (o cinto que ele lhe dera, o cordão da camisa que ele lhe tinha roubado para logo lho devolver amorosamente). Saudade, mágoa e desejo, que ela sabe que são mútuos, é o que canta a donzela nesta bela cantiga.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amigo
Refrão
Cobras singulares
Palavra(s)-rima: (v. 4 de cada estrofe)
no coraçom
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 708, V 309

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 708

Cancioneiro da Vaticana - V 309


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas