Afonso Sanches, Vasco Martins de Resende


- Vaasco Martins, pois vós trabalhades
e trabalhastes de trobar d'amor,
do que agora, par Nostro Senhor,
quero saber de vós, que mi o digades,
5dizede-mi-o, ca bem vos estará:
pois vos esta, por que trobastes, já
morreu, par Deus, [senhor], por quem trobades?
  
- Afonso Sanches, vós [me] preguntades
e quero-vos eu fazer sabedor:
10eu trobo e trobei pola melhor
das que Deus fez - esto ben'o creades;
esta do coraçom nom me salrá,
e atenderei seu bem, se mi o fará;
e vós al de mim saber nom queirades.
  
15- Vaasco Martins, vós nom respondedes,
nem er entendo, assi veja prazer,
por que trobades - que ouvi dizer
que aquela por que trobad'havedes,
e que amastes vós mais doutra rem,
20que vos morreu há gram temp', e por en
pola morta a trobar nom devedes.
  
- Afonso Sanches, pois nom entendedes
em qual guisa vos eu fui responder,
 a mim en culpa nom devem poer,
25mais a vós, se o saber nom podedes:
eu trobo pola que m'em poder tem
e vence todas de parecer bem,
pois viva é, ca nom como dizedes.
  
- Vaasco Martins, pois morreu por quem
30sempre trobastes, maravilho-m'en,
pois vos morreu, como nom morredes.
  
- Afonso Sanches, vós sabede bem
 que viva é e comprida de sem
a por que eu trob'; e sabê-lo-edes.



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Nota geral:

Tenção cujo contexto exato desconhecemos, mas que poderia ter por motivo próximo alguma composição de Vasco Martins que não chegou até nós (esta sendo a sua única intervenção nos cancioneiros). De facto, D. Afonso Sanches pergunta repetidamente ao seu interlocutor por que razão continua ele a trovar pela sua senhora, se ela está morta. Ao longo de toda a tenção, Vasco Martins limita-se a reafirmar que a sua senhor está bem viva e de boa saúde. Serão, pois e sobretudo, os dotes poéticos de Vasco Martins o que D. Afonso Sanches pretenderá, desta forma, pôr em causa, como as suas palavras iniciais parecem dar a entender. Seja como for, o facto de Vasco Martins ter casado três vezes, ou seja, ter ficado duas vezes viúvo num curto espaço de tempo, poderia eventualmente constituir um contexto plausível para o jocoso ataque de D. Afonso Sanches.
Acrescente-se que, na cópia manuscrita do século XVII, conservada no Porto (P), a composição vem acompanhada de uma rubrica, onde se lê: Trovas de D. Afonso Sanches, filho d´el rei D. Dionis a Vasco Martins de Resende, e resposta do mesmo. Acharão-se entre os papéis do grande Mestre André de Resende, e estavom postas em solfa. É esta rubrica que nos permite identificar cabalmente o interlocutor de D. Afonso Sanches, já que na própria composição ele surge apenas como Vasco Martins. De notar ainda que, infelizmente, esta cópia tardia conserva apenas o texto e não a notação musical do mesmo que estaria no exemplar de André de Resende, como nos informa a mesma rubrica.



Nota geral


Descrição

Tenção
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 416, V 27, M, P

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 416

Cancioneiro da Vaticana - V 27


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas