Afonso Lopes de Baião


Em Arouca ũa casa faria;
atant'hei gram sabor de a fazer
que já mais custa nom recearia
nem ar daria rem por meu haver,
 5ca hei pedreiros e pedra e cal;
 e desta casa nom mi míngua al
senom madeira nova, que queria.
  
E quem mi a desse, sempr'o serviria,
ca mi faria i mui gram prazer,
10de mi fazer madeira nova haver,
 em que lavrass'ũa peça do dia,
e pois ir logo a casa madeirar
e telhá-la; e pois que a telhar,
dormir en'ela de noit'e de dia.
  
15E, meus amigos, par Santa Maria,
se madeira nova podess'haver,
log'esta casa iria fazer
e cobri-la e descobri-la ia,
e revolvê-la, se fosse mester;
20e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.



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Nota geral:

Em forma de cerrado equívoco, D. Afonso Lopes de Baião zomba do ambiente, a seu ver devasso, que se viveria no mosteiro de Arouca e pelo qual a abadessa seria responsável. A chave da cantiga reside na expressão "madeira nova", cujo sentido é equivocamente sexual (uma jovem freira, em princípio). Seja como for, e se entendermos a composição neste duplo sentido erótico, a "casa" que, com esta "madeira", D. Afonso gostaria de construir em Arouca tem também seguramente o valor linhagístico que o termo tinha na Idade Média, como bem viu Resende de Oliveira1.
Na verdade, a cantiga, que terá sido composta por volta de 1248-1250, ainda no rescaldo da guerra civil que conduziu à deposição de D. Sancho II, teria muito provavelmente uma dimensão político-social que ultrapassava o seu tom de zombaria ligeira. De facto, o mosteiro de Arouca foi uma das instituições monásticas mais ligada ao acolhimento de senhoras da alta nobreza, várias das quais foram igualmente suas abadessas, como é o caso de D. Mor Martins de Riba de Vizela (tia do trovador, aliás, porque viúva de D. Ponço de Baião), que dirigiu o mosteiro de 1244 a 1285 - pelo que será certamente ela a abadessa referida na composição. Quanto à "jovem freira" requisitada para os trabalhos de construção, a nossa escolha pode ser variada (como, eventualmente, a de D. Afonso), desde Maria Gil de Briteiros (uma filha do conhecido Rui Gomes de Briteiros, a quem o trovador dirige a sua conhecida "gesta de maldizer"), a Dórdia Gil de Soverosa ou a Guiomar Gil de Riba de Vizela, donzelas estas cuja entrada no convento é lamentada numa composição de João Garcia de Guilhade; no rol das candidatas poderia estar ainda, eventualmente, como sugere também Resende de Oliveira, uma qualquer donzela da linhagem dos Madeira, linhagem esta que terá mantido relações próximas com o mosteiro de Arouca. Tudo leva a crer, pois, que, à data em que foi composta, a cantiga visaria sobretudo uma das famílias referidas (eventualmente os Riba de Vizela, linhagem da própria abadessa).
Sabemos, de resto, ainda que por dados posteriores, que o mosteiro não primaria pelo rigor da clausura, já que uma neta do senhor de Briteiros, D. Aldonça, foi igualmente abadessa de Arouca, o que não a impediu de ter filhos de Martim Afonso Chichorro (filho ilegítimo de D. Afonso III). E uma outra freira sua prima, Maria Gomes de Briteiros, teve igualmente um filho do meirinho de Afonso III e futuro mordomo-mor de D. Dinis, Nuno Martins de Chacim.
Acrescente-se ainda que a cantiga deveria ter sido célebre na época, já que foi jocosamente comentada pelo menos por uma outra de Paio Gomes Charinho.

Referências

1 Oliveira, António Resende de (2006), “Distracções e Cultura", in Leontina Ventura, Afonso III, Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 247-251.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras uníssonas (rima c singular)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1471, V 1081

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1471

Cancioneiro da Vaticana - V 1081


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas