Nota geral: Rui Queimado junta-se ao coro das chacotas contra D. Estêvão, jogando aqui equivocamente com um traço que, para além da sua alegada homossexualidade, também lhe é atribuído: a sua miopia ou cegueira. Numa primeira leitura, a ideia parece ser, pois, que ele pode ver mal (os feitos - maus - dos outros) mas ouve certamente muito bem - ainda que não saibamos exatamente onde é que o trovador quer chegar com esta oposição ver/ouvir. E à noite, até vê melhor. A composição tem, no entanto, um problema suplementar, difícil de solucionar: uma última estrofe com sete versos, quando as duas primeiras têm seis. Muito embora Rodrigues Lapa, na sua edição1, tivesse eliminado o verso 16, considerando ter sido um erro dos copistas, o certo é que este verso parece essencial, não só para a compreensão da estrofe, como da própria cantiga, já que é ele que justifica as atividades noturnas de D. Estêvão (Rui Queimado alude, como todos os outros trovadores, à sua homossexualidade). Mantivemo-lo, por isso, como os restantes (não vemos qual poderíamos eliminar), mas não é fácil encontrar uma explicação para a anomalia. Quanto à identidade deste D. Estêvão e ao contexto em que se insere o ciclo de cantigas que lhe são dirigidas, veja-se a explicação que fornecemos na Nota Geral a uma composição de Airas Peres de Vuitorom (bem como a nota antroponímica do v. 1)
Referências 1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.
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