João Baveca, Pedro Amigo de Sevilha


- Pedr'Amigo, quer'ora ũa rem
saber de vós, se o saber puder:
do rafeç'home que vai bem querer
mui boa dona, de quem nunca bem
5atende já, e [d]o bõo, que quer
outrossi bem mui rafece molher
pero que lh'esta queira fazer bem,
qual destes ambos é de peior sem?
  
- Joam Baveca, tod'home se tem
10com mui bom hom', e quero-m'eu teer
logo com el; mais, por sem conhocer
vos tenh'ora, que nom sabedes quem
há peor sem; e, pois vo-l'eu disser,
vós vos terredes com qual m'eu tever;
 15e que sab'[r]edes vós que sei eu quem
[é]: o rafeç'hom'é de peior sem.
  
- Pedr'Amigo, des aqui é tençom,
ca me nom quer'eu convosc'outorgar;
o rafeç'home, a que Deus quer dar
20entendiment', em algũa sazom,
de querer bem a mui bõa senhor,
este nom cuida fazer o peor;
e quem molher rafec'a gram sazom
quer bem, nom pode fazer se mal nom.
  
25- Joam Baveca, fora da razom
sodes, que m'ante fostes preguntar;
ca mui bom home nunca pod'errar
de fazer bem, assi Deus me perdom;
e o rafeç'home que vai seu amor
30empregar u desasperado for,
este faz mal, assi Deus me perdom,
e est'é sandeu e estoutro nom.
  
- Pedr'Amigo, rafeç'home nom vi
perder per mui bõa dona servir,
35mais vi-lho sempre loar e gracir;
e o mui bom home, pois tem cabo si
molher rafeç'e se nom paga d'al,
e, pois el entende o bem e o mal
e, por esto, nõn'a quita de si,
40quant'[el] é melhor, tant'erra mais i.
  
- Joam Baveca, des quand'eu naci,
  esto vi sempr'e departir
do mui bom home: de lh'a bem sair
sempr'o que faz; mais creede per mi:
45do rafeç'home que sa comunal
nom quer servir e serve senhor tal,
porque o tenham por leve, por mi,
quant'ela é melhor, tant'erra mais i.
  
- Pedr'Amigo, esso nada nom val,
 50ca o que ouro serv[e] e nom al,
o a[va]rento semelha des i;
e parta-s'esta tençom per aqui.
  
- Joam Baveca, nom tenho por mal
de se partir: pois ouro serv'atal
55quem nunca pode valer mais per i;
e julguem-nos da tençom per aqui.



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Nota geral:

Numa das mais extensas tenções que nos foram transmitidas pelos cancioneiros, João Baveca e Pedro Amigo de Sevilha discutem a seguinte questão relativa ao amor cortês: entre o vilão que ama sem esperança uma dama de alta linhagem e o homem-bom que vai amar uma mulher inferior, mas condescendente, qual é o mais insensato? Como em qualquer boa tenção, cada um defende o seu ponto de vista: João Baveca, o do vilão desinteressado (o que talvez correspondesse ao seu estatuto social) e Pedro Amigo, o do homem-bom, seguro de si (estatuto que talvez não fosse o seu, mas que assume, logo no início da sua intervenção).
Note-se que a composição tem uma forma cuidada, que inclui dobre nos 4º e 7º versos de cada estrofe.



Nota geral


Descrição

Tenção
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: (v. 8 de cada estrofe, v. 4 da finda)
peior sem (I, II), nom (III, IV), tant'erra mais i (V, VI), tençom per aqui (findas)
Dobre: (vv. 4 e 7 de cada estrofe)
bem (I), quem (II), sazom (III), assi Deus me perdom (IV), si (V), per/por mi (VI)
Finda (2)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1221, V 826
(C 1221)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1221

Cancioneiro da Vaticana - V 826


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas