Afonso X - All cantigas

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Cancioneiros:

B 456
(C 456)

Description:

Cantiga de Amigo

Refrão e Paralelística

Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.
  
5Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
       muito me tarda
       o meu amigo na Guarda.


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Cancioneiros:

B 457

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Mester havia Dom Gil
um falconcinho bornil
que nom voasse,
nemigalha nom filhasse;
  
5[e] um galguilinho vil
que ũa lébor, de mil,
non'[a] filhasse,
mais rabejasse e ladrasse;
  
podengo de riba Sil
10que en fiass'um nihil
que lhi mejasse,
a Dom Gil,
quando lébor i achasse;
  
e osas d'um javaril
15que dessem per seu quadril
[e s'embargasse],
[i] Dom Gil,
quando lébor levantasse.


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Cancioneiros:

B 458

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Achei Sanch' [E]anes encavalgada
e dix'eu por ela cousa guisada:
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
5       vi-a cavalgar per ũa aldeia
       e quige jurar que era mostea.
  
Vi-a cavalgar, muach'e sendeiro,
e nom ia milhor um cavaleiro.
Santiaguei-m'e disse: - Gram foi o palheiro
10onde carregarom tam gram mostea!
       Vi-a cavalgar per ũa aldeia
       e quige jurar que era mostea.
  
Vi-a cavalgar indo pela rua,
mui bem vistida em cima da mua;
15dix'eu: - Ai, velha fududancua,
que me semelhades ora mostea!
       Vi-a cavalgar per ũa aldeia
       e quige jurar que era mostea.


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B 459

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão, refrão inicial

       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.
  
Pois que me foi el furtar
meu podeng'e mi o negar
5- e quant'é, a meu cuidar,
destes penhos, pesar-lh'-am:
ca o quer'eu penhorar
na cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
10       na cadela, polo cam.
  
Mandou-m'el furtar alvor
o meu podengo melhor
que havia; e sabor
de penhorar lh'hei, de pram,
15e filhar-lh'-ei a maior
sa cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.
  
Pero querrei-mi aviir
20com el, se [mi o] consentir;
mais, se o el nom comprir,
os seus penhos ficar-mi-am;
e querrei-me bem servir
da cadela, polo cam.
25       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.


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B 460

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Med'hei do pertigueiro que tem Deça,
semelha Pero Gil na calvareça,
e nom vi mia senhor [há] mui gram peça,
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
5       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
  
Med'hei do pertigueir'e ando soo,
que semelha Pero Gil no feijoo,
e nom vi mia senhor, ond'hei gram doo,
10       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
  
Med'hei do pertigueiro tal que mejo,
que semelha Pero Gil no vedejo,
15e nom vi mia senhor, ond'hei desejo:
       Mília nem Sancha Fernándiz, que muit'amo.
       - Antolha-xe-me riso, pertigueir', e chamo
       Mília e Sancha Fernándiz, que muit'amo.
  


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B 461

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Direi-vos eu d'um ric'home
de com'aprendi que come:
mandou cozer o vil home
meio rabo de carneiro
5- assi com'o cavaleiro.
  
E outro meio filhou,
e peiteá-lo mandou,
[e] ao colo o atou,
tal que o nom aolhasse
10quen'o visse e o catasse.
  
E pois ali o liou,
estendeu-se e bucijou;
por ũa velha enviou,
que o veesse escantar
15d'olho mao de manejar.
  
A velha e[n] diss'atal:
- Daquesto foi, que nom d'al:
de que comestes mui mal.
E começou de riir
20muito del [e] escarnir.
  
Nun'Eanes diss'assi:
- Fiinda mester há i.
  
Dom Afonso diss'atal:
- Faça-xo quem faz o al.


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B 462

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Tanto sei de vós, ric'homem: pois fordes n[a] alcaria
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
       Ficaredes por astroso,
5       por untad'e por lixoso.
  
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
       Ficaredes por astroso,
10       por untad'e por lixoso.
  
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
       Ficaredes por astroso,
15       por untad'e por lixoso.


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B 463

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Se me graça fezesse este Papa de Roma!
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
5       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.
  
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
10que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.
  
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
15fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
       Quisera eu assi deste nosso Papa
       que me talhasse melhor aquesta capa.


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B 464

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Dom Rodrigo, moordomo, que bem pôs a 'l-rei a mesa
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
  
5E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
  
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
10todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.


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B 465

Description:

Tenção

- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
5eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
  
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
10em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
  
15- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
20deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
  
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
25em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.


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B 466
(C 467)

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
  
Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
5e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
  
E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
  
10E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.
  
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
15quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
  
Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.
  
E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
20e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
  
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
  
25Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
  
E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
30Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.
  
E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
  
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
35porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.


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B 467, E 40, TO 30

Description:

Cantiga de Cantiga de Loor

Refrão, refrão inicial

Deus te salve, Gloriosa,
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
  
5 Salve-te, que concebiste
mui contra natura,
e pois teu padre pariste
e ficaste pura
virgem, e por en sobiste
10sobre'la altura
dos ceos, porque quesiste
o que El queria.
       Deus te salve, groriosa
       reinha Maria,
15       lume dos santos fremosa
       e dos ceos via.
  
Salve-te, que enchoíste
Deus gram sem mesura
em ti, e dele feziste
20hom'e creatura:
esto foi porque houviste
gram sem e cordura
em creer quando oíste
sa messageria. 
25       Deus te salve, groriosa
       reinha Maria
       lume dos santos fremosa
       e dos ceos via.
  
 Salve-te Deus, ca nos diste,
30em nossa figura,
o seu Filho, que trouxiste,
de gram fremosura,
e com El nos remiiste
da mui gram loucura
35que fez Eva, e venciste
o que nos vencia.
       Deus te salve, groriosa
       reinha Maria,
       lume dos santos fremosa
40       e dos ceos via.
  
Salve-te Deus, ca tolhiste
de nós gram tristura
u por teu filho frangiste
a cárcer escura
45u íamos, e metiste
nos em gram folgura;
com quanto bem nos viíste,
quen'o contaria? 
       Deus te salve, groriosa
50       reinha Maria,
       lume dos santos fremosa
       e dos ceos via


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Cancioneiros:

B 468

Description:

Cantiga de Cantiga de Loor

Fragmento

Falar quer'eu da senhor bem cousida,
qual nunca foi outra nem há de seer,
que os seus servidores mui bem convida
em tal logar u nunca ham de morrer.
5Desto sõo certo que nom foi falida
e cada um hav'rá o dom que meter
e pois houverem daqui a morrer
salra[m] da mort[' e] entrarám na vida.


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B 468bis

Description:

Cantiga de Amor

Mestria

Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
5porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
10nunca lh'homem pod'achar.
  
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
15en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
20quantos som, nem seeram.
  
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
25e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
30vós que [já] sempr'am[ar]ei.


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B 469

Description:

Cantiga de Amor

Mestria

Pois que m'hei ora d'alongar
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
5direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.
  
Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
10des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.
  
15E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
20moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.


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B 470

Description:

Cantiga de Amor

Refrão

Par Deus, senhor,
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
5coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
10       penado, penado.
  
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
15perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
20       penado, penado.
  
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
25que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
30       penado, penado.


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B 471bis

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

[Maria Pérez vi muit'assanhada,]
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
5E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
       se ũa vez assanhar me fazedes,
       saberedes quaes pêras eu vendo.
  
Ca [me] rogades cousa desguisada
10e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
15       se ũa vez assanhar me fazedes,
       saberedes quaes pêras eu vendo.
  
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
20cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
       se ũa vez assanhar me fazedes,
       saberedes quaes pêras eu vendo.
  
25E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
30daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
       se ũa vez assanhar me fazedes,
       saberedes quaes pêras eu vendo.


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B 472

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Pero que hei ora mêngua de companha,
nem Pero Garcia nem Pero d'Espanha
       nem Pero Galego
       nom irá cõmego.
  
5E bem vo-lo juro par Santa Maria:
que Pero d'Espanha nem Pero Garcia
       nem Pero Galego
       nom irá cõmego.
  
Nunca cinga espada com bõa bainha,
10se Pero d'Espanha nem Pero Galinha
       nem Pero Galego
       for ora cõmego.
  
Galego, galego, outrem irá cõmego.


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B 473

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Dom Airas, pois me rogades
que vos di[g]a meu conselho,
direi-vo-lo em concelho:
por bem tenh'eu que vaades
5       mui longe de mi e mui com meu grado.
  
E por eu [vos] bem conselhar
nom dé-vos com estar peior,
ca vos conselh'eu o milhor:
10que vaades ora morar
       mui longe de mi e mui com meu grado.
  
Conselho vos dou d'amigo;
e sei, se o vós fezerdes
15e me daquesto creverdes,
morar[e]des u vos digo:
       mui longe de mi e mui com meu grado.


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B 474

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Fragmento

Dom Meendo, vós veestes
falar migo noutro dia;
e na fala que fezestes
perdi eu do que tragia.
5       Ar quer[r]edes falar migo
       e nom querrei eu, amigo.


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B 474bis

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Dom Meendo, Dom Meendo,
por quant'ora eu entendo,
       quem leva o baio, nom leixa a sela.
  
Amigo de Souto Maior,
5daquesto sõo sabedor:
       quem leva o baio, nom leixa a sela.
  
Dom Meendo de Candarei,
per quant'eu de vós apres'hei,
       quem leva o baio, nom leixa a sela.


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B 475

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Fragmento

Falavam duas irmanas, estand'ante sa tia,
e diss'a ũa a outra: - Naci em grave dia,
e nunca casarei,
ai mia irmana, se me nom [vou a] cas del-rei.


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B 476

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão, refrão inicial

Nom quer'eu donzela fea
que ant'a mia porta pea.
  
Nom quer'eu donzela fea
e negra come carvom
5       que ant'a mia porta pea
nem faça come sisom.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.
  
Nom quer'eu donzela fea
10e velosa come cam
       que ant'a mia porta pea
nem faça come alarmã.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.
  
15Nom quer'eu donzela fea
que há brancos os cabelos
       que ant'a mia porta pea
nem faça come camelos.
       Nom quer'eu donzela fea
20       que ant'a mia porta pea.
  
Nom quer'eu donzela fea,
veelha de má[a] coor
       que ant'a mia porta pea
nem [me] faça i peior.
25       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.


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B 477

Description:

Tenção

Mestria

- Senher, ad-ars ie'us venh 'querer
un don que'm donetz, si vos plai:
que vul[h] vostr'almiral esser
en cela vostra mar d'alai;
5e si o fatz, en bona fe,
c'a totas las na[u]s que la som
eu les farai tal vent de me,
c'or la vam totas a mon.
  
- Dom Arnaldo, pois tal poder
10de vent'havedes, bem vos vai,
e dad'a vós dev'a seer
aqueste dom; mais dig'eu: ai,
por que nunca tal dom deu rei?
Pero nom quer'eu galardom;
15mais, pois vo-lo já outorguei,
chamem-vos "Almiral Sisom".
  
- Lo dom vos deit molt mercejar
e l'ondrat nom que m'avetz mes,
e d'aitam vos vul[h] segurar
20qu'en farai un vent tam cortes
que mia dona, qu'es la melhor
del mond e la plus avinen,
farai passar a la dolçor
del temps, con filhas altras cen.
  
25- Dom Arnaldo, fostes errar,
por passardes com batarês
vossa senhor a Ultramar,
que nom cuid'eu que [ha]ja três
no mundo de tam gram valor;
30e juro-vos, par Sam Vincent,
que nom é bom doneador
quem esto fezer a ciente.


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B 478, V 61

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Joam Rodriguiz, vejo-vos queixar
[...]
  
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
5ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
  
10E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
15e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!


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B 479, V 62

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
5       ai que coteife pera a carreta!
  
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
10       ai que coteife pera a carreta!
  
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
15       ai que coteife pera a carreta!


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Cancioneiros:

B 480, V 63

Description:

Cantiga de Sirventês moral

Mestria

Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
5nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
10deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
  
E juro par Deus lo santo
15que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
20vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
25do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
  
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
30adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
35que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
  
40E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
45- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
50algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.


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B 481, V 64

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Joam Rodriguiz foi desmar a Balteira
sa midida, per que colha sa madeira;
e disse: - Se [o] bem queredes fazer,
de tal midida a devedes colher
5[assi] e não meor, per nulha maneira.
  
E disse: - Esta é a madeira certeira,
e, de mais, nõn'a dei eu a vós sinlheira;
e pois que s'em compasso há de meter,
atam longa deve toda [a] seer
10[que vaa] per antr'as pernas da 'scaleira.
  
A Maior Moniz dei já outra tamanha,
e foi-a ela colher logo sem sanha;
e Mari'Airas feze-o logo outro tal,
e Alvela, que andou em Portugal;
15e já x'as colherom [e]na montanha.
  
E diss': - Esta é a midida d'Espanha,
ca nom de Lombardia nem d'Alamanha;
e porque é grossa, nom vos seja mal,
ca delgada para gata rem nom val;
20e desto mui mais sei eu [i] ca boudanha.


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B 482, V 65

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Ansur Moniz, muit'houve gram pesar
quando vos vi deitar, aos porteiros,
vilanamente d'antr'os escudeiros;
e dixe-lhis logo, se Deus m'ampar:
5- Per boa fé, fazêde-lo mui mal,
ca Dom Ansur, onde m'el meos val,
vem dos de Vilan'Ansur de Ferreiros!
  
E d'outra parte vem dos d'Escobar
e de Campos, mais nom dos de Cizneiros,
10mais de Lavradores e Carvoeiros;
e doutra veo: foi dos d'Estepar;
e d'Azeved'ar é mui natural,
u jaz seu padr'e sa madr'outro tal,
e jará el e todos seus herdeiros.
  
15E sem esto, er foi el gaanhar
[mui] mais ca os seus avoos primeiros;
e comprou fouces, terra e [o]breiros,
e Vilar de Paos ar foi comprar
pera seu corp', e diz ca nom lh'en cal
20de viver pobre, ca quem x'a si fal,
falecer-lh'-a[m] todos seus companheiros.


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B 483, V 66

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Senhor, justiça viimos pedir
que nos façades, e faredes bem:
d'a Gris furtarom tanto, que por en
nom lhi leixarom que possa cobrir;
5pero atant'aprendi d'um judeu:
que este furto fez uum romeu,
que foi já outros [assi] escarnir.
  
E tenho que vos nom veo mentir,
pelos sinaes que nos el diss'en
10ca eno rostr'o trage, [e] nom tem
por direito de s'end'el encobrir;
e se aquesto sofredes, bem lheu
querram a outr'assi furtá-l'o seu,
de que pode mui gram dano viir.
  
15É romeu que Deus assi quer servir
- por levar tal furt'a Jelusalém!
E sol nom cata como Gris nom tem
[já] nunca cousa de que se cobrir;
ca todo quant'el despendeu e deu
20dali foi - tod'aquesto [o] sei eu
e quant[o] el foi levar e vistir.


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B 484, V 67

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Fui eu poer a mão noutro di-
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
5ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.
  
U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
10ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!
  
15Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
20esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.
  
Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
25comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.
  
E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
30eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!


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B 485, V 68

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Pero da Pont'há feito gram pecado
de seus cantares que el foi furtar
a Cotom: que, quanto el lazerado
houve gram tempo, el x'os quer lograr,
5e doutros muitos que nom sei contar,
por que hoj'anda vistido e honrado.
  
E por en foi Cotom mal dia nado
pois Pero da Ponte herda seu trobar;
e mui mais lhi valera que trobado
10nunca houvess'el, assi Deus m'ampar,
pois que se, de quant'el foi lazerar,
serve Dom Pedro e nom lhi dá en grado.
  
E com dereito seer enforcado
deve Dom Pedro, porque foi filhar
15a Cotom, pois lo houve soterrado,
seus cantares, e nom quis en[de] dar
um soldo pera sa alma quitar
sequer do que lhi havia emprestado.
  
E por end'é gram traedor provado,
20de que se já nunca pode salvar,
come quem a seu amigo jurado,
bevendo com el[e], o foi matar
- todo polos cantares del levar,
com os quaes hoj'anda arrufado.
  
25E pois nom há quen’o por en retar
queira, seerá oimais por mim retado.


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B 486, V 69

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Dom Foão, quand'ogan'aqui chegou
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
5seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
  
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
10que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
  
15O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
20bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
  
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
25- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
  
E ao Demo vou acomendar
30prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.


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B 487, V 70

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Pero da Ponte, paro-vos sinal
per ante o demo do fogo infernal,
porque com Deus, o padr'espirital,
minguar quisestes, pois mal descreestes.
5       E bem vej'ora que trobar vos fal
       pois vós tam louca razom cometestes.
  
E pois razom [a]tam descomunal
fostes filhar, e que tam pouco val,
pesar-mi-á en, se vos pois a bem sal
10ante o diabo, a que obedecestes.
       E bem vej'ora que trobar vos fal
       pois vós tam louca razom cometestes.
  
Vós nom trobades come proençal,
mais come Bernaldo de Bonaval;
15por ende nom é trobar natural
pois que o del e do dem'aprendestes.
       E bem vej'ora que trobar vos fal
       pois vós tam louca razom cometestes.
  
E por en, Dom Pedr', em Vila Real,
20em maao ponto vós tanto bevestes.


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B 488, V 71

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Cirola vi [eu] andar-se queixando
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
5log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.
  
E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
10[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.
  
15E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
20mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.


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B 489, V 72

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Quero-vos ora mui bem conselhar,
meestre Joam, segundo meu sem:
que, macar preit'hajades com alguém,
nom queirades com el em voz entrar,
5mais dad'a outrem que tenha por vós,
ca vossa honra é [de] todos nós,
a quantos nós havemos per amar.
  
E pero se a quiserdes tẽer,
nõn'a tenhades per rem ant'el-rei;
10e direi-vos ora porque o hei:
porque nunca vo-lo vejo fazer
que vo-lo nom veja teer assi
que, pero vos el-rei queira des i
bem juïgar, nom há end'o poder.
  
15E ainda vos conselharei al,
porque vos amo [mui] de coraçom:
que nunca voz em dia d'Acençom
tenhades, nem em dia de Natal,
nem doutras festas de Nostro Senhor,
20nem de seus santos, ca hei gram pavor
de vos viir mui toste deles mal.
  
Nem na eigreja nom vos conselh'eu
de teer voz, ca vos nom há mester;
ca, se peleja sobr'ela houver,
25o arcebispo, voss'amig'e meu,
a quen'o feito do sagrado jaz,
e a quem pesa do mal, se s'i faz,
querrá que seja quanto havedes seu.
  
E pol'amor de Deus, estad'em paz
30e leixade maa voz, ca rapaz
sol nõn'a dev'a teer, nem judeu.


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B 490, V 73

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

Com'eu em dia de Páscoa querria bem comer,
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
       pera meestre Joam.
  
Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
5assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
       pera meestre Joam.
  
Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
       pera meestre Joam.
  
10Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
       pera meestre Joam.


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B 491, V 74

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
5e esmorece
o coteife com pavor.
  
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
10corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
  
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
15estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
  
Vi eu de coteifes azes,
20com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
  
25Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
30e fezerom o peor.
  
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
35os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.


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B 492, V 75

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

De grado querria ora saber
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
5porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
  
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
10se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
  
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
15em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
  
[E] outrossi lhis ar vejo trager
20as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.


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B 493, V 76

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Ao daiam de Cález eu achei
livros que lhe levavam de Berger,
e o que os tragia preguntei
por eles, e respondeu-m'el: - Senher,
5com estes livros que vós vedes, dous,
e con'os outros que el tem dos sous,
fod'el per eles quanto foder quer.
  
E ainda vos end'eu mais direi:
macar [e]na Lei muit'haj[a mester]
10leer, por quant'eu sa fazenda sei,
con'os livros que tem, nom há molher
a que nom faça que semelhem grous
os corvos e as anguias babous,
per força de foder, se x'el quiser.
  
15Ca nom há mais, na arte do foder,
do que [e]nos livros que el tem jaz;
e el há tal sabor de os leer
que nunca noite nem dia al faz;
e sabe d'arte do foder tam bem
20que, con'os seus livros d'artes que el tem,
fod'el as mouras, cada que lhi praz.
  
E mais vos contarei de seu saber
que cõn'os livros que el tem [i] faz:
manda-os ante si todos trager,
25e pois que fode per eles assaz,
se molher acha que o demo tem,
assi a fode per arte e per sem,
que saca dela o demo malvaz.
  
E com tod'esto, ainda faz al
30con'os livros que tem, per bõa fé:
se acha molher que haja [o] mal
deste fogo que de Sam Marçal é,
assi [a] vai per foder encantar
que, fodendo, lhi faz bem semelhar
35que é geada ou nev'e nom al.


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B 494, V 77

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
       que faroneja?
5Pois el agora tam muit'erra,
       maldito seja!
  
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
10       que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
       maldito seja!
  
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
15é por nom ir a Graada
       que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
       maldito seja!
  
O que meteu na taleiga
20pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
       que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
       maldito seja!


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B 495, V 78

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Mestria

Domingas Eanes houve sa baralha
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
5e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.
  
O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
10e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.
  
15E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
20e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.
  
E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
25a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.


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Cancioneiros:

B 496/145bis, V 79

Description:

Cantiga de Escárnio e Maldizer

Refrão

O que da guerra levou cavaleiros
e a sa terra foi guardar dinheiros,
       nom vem al maio.
  
O que da guerra se foi com maldade
5e a sa terra foi comprar herdade,
       nom vem al maio.
  
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
       nom vem al maio.
  
10O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
       nom vem al maio.
  
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
15       nom vem al maio.
  
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
       nom vem al maio.
  
O que tragia o pendom sem sete
20e cinta ancha e mui gram topete,
       nom vem al maio.
  
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
       nom vem al maio.
  
25O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
       nom vem al maio.
  
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
30       nom vem al maio.
  
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
       nom vem al maio.
  
O que da guerra se foi com espanto
35e a sa terra ar foi armar manto,
       nom vem al maio.
  
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
       nom vem al maio.
  
40O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
       nom vem al maio.
  
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
45       nom vem al maio.


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B 1512
(C 1512)

Description:

Tenção

Mestria

- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
5quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
  
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
10e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
  
15- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
20(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
  
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
25já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.


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Cancioneiros:

B 1624, V 1158
(C 1624)

Description:

Tenção

Mestria

- Ũa pregunta vos quero fazer,
senhor, que mi devedes afazer:
por que viestes jantares comer,
que home nunca de vosso logar
5comeu? [E] esto que pode seer,
ca vej'ende os herdeiros queixar?
  
- Pa[a]i Gómez, quero-vos responder,
por vos fazer a verdade saber:
houv[e] aqui reis de maior poder
10[em] conquerer e em terras ganhar,
mais nom quem houvesse maior prazer
de comer, quando lhi dam bom jantar.
  
- Senhor, por esto nom dig'eu de nom,
de bem jantardes, ca é gram razom;
15mailos herdeiros foro de Leon
querriam vosco, porque ham pavor
d'haver sobre lo seu vosc'entençom
e xe lhis parar outr'ano peior.
  
- Pa[a]i Gómez, assi Deus mi perdom,
20mui gram temp'há que nom foi em Carriom,
nem mi derom meu jantar em Monçom;
e por esto nom sõo pecador,
de comer bem, pois mi o dam em doaçom,
ca de mui bom jantar hei gram sabor.