João Soares Somesso


Desejand'eu vós, mia senhor,
seguramente morrerei;
e do que end'estou peor,
é d'ũa rem que vos direi:
5que sei, de pram, que, pois morrer,
haverei gram coit'a sofrer
por vós, como mi agora hei.
  
E por en e por voss'amor
já sempr'eu gram coit'haverei
10aqui, enquant'eu vivo for;
ca, des quand'eu morrer, bem sei
que non'a hei nunc'a perder,
pois vosso bem nom poss'haver;
ca por al non'a perderei.
  
15Por quantas outras cousas som
que Deus no mundo fez de bem,
polas haver eu todas nom
perderia coita por en.
E podê-la-ia perder,
20mia senhor, sol por vos veer,
em tal que a vós prouguess'en.
  
Ora vos dig'eu a razom
de como me de vós avém;
ca, Deu'lo sab', há gram sazom
25que desejei mais doutra rem,
senhor, de vos esto dizer;
pero non'o ousei fazer
  erg'ora, pois me vou daquém.



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General note:

Dirigindo-se à sua senhora, o trovador diz-lhe que o desejo o fará morrer. Mas o pior é que acredita que mesmo depois de morto continuará a sofrer por ela, uma vez que não poderá obter os seus favores (ideia que já aparecia em cantigas anteriores). De resto, nem que Deus lhe desse todas as coisas boas do mundo, ele não deixaria de sofrer. A única forma de acabar o seu sofrimento seria poder vê-la e ela gostar de o ver. E termina dizendo que, se antes não ousava, só agora lhe confessa tudo isto porque vai partir.



General note


Description

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas (rima c uníssona)
(Learn more)


Manuscript sources

A 27, B 120

Cancioneiro da Ajuda - A 27

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 120


Musical versions

Originals

Unknown

Contrafactum

Unknown

Modern Composition or Recreation

Unknown