Estêvão da Guarda


Rui Gonçálviz, pero vos agravece
porque vos travou em vosso cantar
Joan'Eanes, vej'eu el queixar
de qual deosto lhi de vós recrece:
5u lhi fostes trobar de mal dizer
em tal guisa que bem pod'entender
quem quer o mal que a olho parece.
  
Por en partid'este feito de cedo,
ca de maldizer nom tirades prol;
10e como s'en Joan'Eanes dol,
já de vós perdeu vergonha e medo:
ca entend'el que se dev'a sentir
de mal dizer que a seu olho vir
que pode log'acertar com seu dedo.
  
15Pois sodes entendud'e [bom ra]vista,
sabed'agora catar tal razom
per que venha este feit'a perdom;
e por parardes milhor a conquista
outorgad'ora, senhor, que nos praz:
20se mal dizer no vosso cantar jaz
que o poedes tod'à nossa vista.



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General note:

O pretexto para esta subtil cantiga é, aparentemente, uma disputa entre dois trovadores (de quem não nos chegaram cantigas), com Estêvão da Guarda a servir de árbitro: Rui Gonçalves tinha feito uma cantiga de maldizer a João Eanes, o qual, ofendido pela clareza das acusações, lha tinha criticado, o que por sua vez ofendera Rui Gonçalves. Dirigindo-se ao autor da cantiga inicial, Rui Gonçalves, Estêvão da Guarda parece colocar-se do lado do ofendido, João Eanes, e incita o "agressor" a fazer outra cantiga para se fazer perdoar. De facto, ele não só reforça as acusações (aludindo, equivocamente, a uma relação homessexual entre os dois), como pede a Rui Gonçalves para ser mais explícito.
Note-se, no entanto, que a cantiga joga também com a expressão jurídica medieval "ver por olho", comprovar por experiência. E é também possível que jogue ainda com o facto de o gesto de dobrar o dedo médio ao dar a mão ser usado como um sinal entre homossexuais, como já referem alguns textos medievais1.
Para além destas questões relativas ao entendimento do equívoco, note-se que a composição é igualmente um interessante documento sobre o modo como os trovadores entendiam os dois modos do trovar satírico, o escárnio (equívoco ou encoberto) e o maldizer (dizer mal "descubertamente", como refere a Arte de Trovar).

References

1 Ifrah, Georges (1997), História universal dos algarismos, vol. I, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, p. 116.



General note


Description

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares
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Manuscript sources

B 1312, V 917

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1312

Cancioneiro da Vaticana - V 917


Musical versions

Originals

Unknown

Contrafactum

Unknown

Modern Composition or Recreation

Unknown