Toponímia referida na cantiga:
  (linha 21)

João Airas de Santiago


A por que perço o dormir      ←
e ando mui namorado      ←
vejo-a daqui partir      ←
e fic'eu desemparado;      ←
5a mui gram prazer se vai      ←
a Crexent', em sua mua baia;      ←
       vestida d'um prés de Cambrai,      ←
       Deus! que bem lh'está manto e saia.      ←
  
A morrer houvi por en      ←
10tanto a vi bem talhada,      ←
que parecia mui bem      ←
em sua sela dourada;      ←
as sueiras som d'ensai      ←
e os arções [som] de faia;      ←
15       vestida d'um prés de Cambrai      ←
       Deus! que bem lh'está manto e saia.      ←
  
Se a pudess'eu filhar      ←
  terria-m'en por bem andante      ←
e nos braços a levar      ←
 20na coma do rocim, deante,      ←
per caminho de Lampai      ←
passar Minh'e Doir'e Gaia;      ←
       vestida d'um prés de Cambrai      ←
       Deus! que bem lh'está manto e saia.      ←
  
25Se a pudess'alongar      ←
quatro légoas de Crecente      ←
e nos braço'la filhar,      ←
apertá-la fortemente,      ←
nom lhi valria dizer "ai"      ←
30nem chamar Deus nem Sant'Ovaia.      ←
       vestida d'um prés de Cambrai      ←
       Deus! que bem lh'está manto e saia.      ←



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Nota geral:

Cantiga que pertence à zona de limite entre os géneros. Dificilmente classificável como de amor (que seria a sua vocação primeira), ela também não corresponde exatamente ao universo tradicional das cantigas satíricas. No entanto, quer a precisão deste retrato feminino em movimento, quer a clara alusão a um desejado rapto, quer, sobretudo, o tom risonho com que João Airas a constrói, fazem desta composição um exemplo de ambiguidade no que respeita ao género.
É possível que a cantiga tenha sido composta num contexto bem preciso, de que infelizmente não temos notícia, e que o trovador aluda aqui a um qualquer episódio concreto (não necessariamente autobiográfico) de que uma dama galega teria sido protagonista. A este respeito, não podem deixar de assinalar-se ainda as coincidências geográficas e textuais com as duas composições que aludem ao rapto de D. Elvira Anes da Maia por Rui Gomes de Briteiros. Sendo certo que a cronologia de João Aires, bastante mais tardia, parece impedir que a sua cantiga seja contemporânea deste célebre episódio, talvez seja, no entanto, verosímil, como sugere José Carlos Miranda1, que ele possa ainda ser aqui o jocoso modelo de rapto bem sucedido.

Referências

1 Miranda, José Carlos (1996), Os trovadores e a região do Porto , Porto, Ed. Autor.



Nota geral


Descrição

Género incerto
Refrão
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 960, V 547

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 960

Cancioneiro da Vaticana - V 547


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas