Nota geral: Diálogo muito crítico sobre os conselheiros reais, travado entre dois interlocutores que, ao contrário do que é norma nas tenções, não são nunca nomeados. Até por este motivo, a cantiga levanta alguns problemas de autoria, não completamente elucidados. De facto, a composição surge duas vezes nos apógrafos italianos: uma primeira vez, na secção das cantigas de amigo de ambos os cancioneiros (B e V), aí sendo atribuída a Martim Moxa; uma segunda vez, só em V (na secção das cantigas de escárnio), aí sendo atribuída a Lourenço (e acompanhada da rubrica que transcrevemos). Procurando solucionar este problema, e uma vez que a composição é claramente um diálogo, Carolina Michaelis sugeriu1 que se trataria de uma tenção entre Martim Moxa e Lourenço, opinião que foi sendo seguida por todos os editores posteriores (o rei citado na rubrica podendo ser, neste caso Afonso III ou mesmo Afonso X). Mais recentemente Resende de Oliveira2, baseado em razões com algum peso (entre as quais se pode destacar o facto de a composição vir, na segunda transcrição de V, imediatamente antes da obra do conde D. Pedro de Barcelos, e haver, neste passo do cancioneiro, alguma flutuação nas rubricas atributivas), sugere que ela deveria, de facto, incluir-se na obra do Conde. A crítica aos privados reais é, na verdade, um tema não só retomado por D. Pedro e pelos trovadores e jograis do seu círculo, como é um tema que, nos Cancioneiros, parece ser exclusivo desta época mais tardia da poesia trovadoresca. Tavani, no entanto, discorda desta opinião e crê que a atribuição a Martim Moxa, indicada pelos Cancioneiros, deverá continuar a prevalecer3. A notória preferência deste trovador pelos temas morais, muito coincidente com o tom que encontramos nesta composição parece, de facto, um ponto a favor desta opinião. Já o facto de ser eventualmente Lourenço o interlocutor de Martim Moxa parece pouco consentâneo com o perfil da restante obra que nos chegou deste jogral. Assim sendo, tendo em conta a longevidade atribuída a Martim Moxa por uma cantiga do nosso corpus e também a alusão a este trovador que encontramos numa cantiga de João de Gaia (trovador do círculo de D. Pedro), uma hipótese intermédia a considerar seria a de considerarmos exatamente D. Pedro o interlocutor de Martim Moxa (neste caso, sendo o rei citado na rubrica D. Afonso IV). Num artigo mais recente4, no entanto, Mercedes Brea volta a defender que este interlocutor será Lourença. O problema permanece, pois, em aberto. Com todas estas reservas e incertezas, incluímo-la, pois, na obra de Martim Moxa, mas dando o estatuto de "anónimo" ao seu interlocutor. Acrescente-se ainda que, para além de não ser igualmente seguida outra das regras da tenção (o mesmo número de estrofes a cada interlocutor), também não é claro quem inicia o diálogo e quem responde. Note-se finalmente que a cantiga apresenta algumas variantes nas três versões (que indicamos nas notas).
Referências 1 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. II, Lisboa, Imprensa nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904), p. 472.
2 Oliveira, António Resende de (1994), Depois do espectáculo trovadoresco. A estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV, Lisboa, Edições Colibri.
3 Tavani, Giuseppe (1993), "Lourenço" in Lanciani, Giulia e Tavani, Giuseppe (org.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, p. 426.
4 Brea, Mercedes (2009), "Vós que soedes en corte morar, un caso singular", in Pola melhor dona de quantas fez Nostro Senhor. Homenaxe á Professora Giulia Lanciani, Xunta de Galicia. Aceder à página Web
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