Airas Nunes


O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
5que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
  
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
10E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
  
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
15nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"



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Nota geral:

Nesta cantiga, cujas circunstâncias históricas exatas nos escapam, Airas Nunes relata o que Lapa chama "uma cena de violência tipicamente medieval"1;. A dita cena, um ataque noturno a uma companhia em fuga, ter-se-á passado com o bispo de Tui, como supõe Carolina Michaelis2, talvez por volta de 1283-84 (sendo nessa altura bispo Fernando Airas, que ocupou o cargo de 1276 a 1285). Fosse qual fosse o bispo e os motivos da sua fuga, o certo é que a vítima parece ter sido o próprio trovador, que estaria ao seu serviço, a acreditarmos no que relata a cantiga, dita na primeira pessoa.
Não deixa de ser um pouco estranha esta confissão das sevícias e insultos sofridos. No entanto, em 1284, como indica Resende de Oliveira3, D. Sancho IV de Castela manda entregar a Airas Nunes uma soma de dinheiro para comprar um cavalo e vestuário, doação que poderá relacionar-se com a cena aqui descrita. Acrescente-se que a lição dos códices está bastante danificada nas duas últimas estrofes, o que não facilita as coisas.

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.

2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (2004), "O romance de D. Fernando", in Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português (trad. do texto de 1905) , Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis, p. 324, nota 35.

3 Oliveira, António Resende de (1994), Depois do espectáculo trovadoresco. A estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV, Lisboa, Edições Colibri.



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Mestria
Cobras singulares (rima b uníssona)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 885, V 468

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 885

Cancioneiro da Vaticana - V 468


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas