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  (linha 16)

Paio Gomes Charinho


Ora me venh'eu, senhor, espedir      ←
de vós, a que muit'há que aguardei;      ←
e ora me quero de vós partir      ←
sem galardom de camanho temp'hei      ←
5que vos servi, e quero-m'ir viver      ←
em atal terra, u nunca prazer      ←
veja, nem cante, nem possa riir.      ←
  
Ca sõo certo, des que vos nom vir,      ←
que outro prazer nunca veerei;      ←
10e, mal que haja, nom hei de sentir      ←
senom o voss'; e assi andarei      ←
triste, cuidando no vosso parecer,      ←
e, chorando, muitas vezes dizer:      ←
- Senhor, já nunca vos posso servir!      ←
  
15E do meu corpo que será, senhor,      ←
quand'el d'alá o vosso desejar?      ←
E que fará quem vos há tal amor      ←
e vos nom vir, nem vos poder falar?      ←
Ca vejo vós e por vós morr'aqui      ←
20- pois que farei ou que será de mim      ←
quand'em terra u vós fordes nom for?      ←
  
Ora com graça de vós, a melhor      ←
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;      ←
e vós ficades de mim pecador,      ←
25ca vos servi muit'e galardoar      ←
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,      ←
d'u eu tanto lazerei e servi,      ←
buscar u viva pouc'e sem sabor.      ←
  
E, mia senhor, tod'est'eu mereci      ←
30a Deus; mais vós, de como vos servi,      ←
mui sem vergonha irei per u for      ←
- ora com graça de vós, mia senhor.      ←



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Nota geral:

Cantiga de despedida, composta num belo tom emotivo, que parece, em certos passos, aproximar-se do registo pessoal e escapar um pouco à retórica normativa do género.
A cantiga coloca-nos no exato momento da partida, e as palavras são efetivamente de quem, justificando-se, se despede - terminando, aliás, com a saudação de despedida usual na época (com graça de vós, com vossa licença).
Se o motivo que o trovador alega para a sua partida é tópico (a indiferença da senhora face ao seu longo e fiel serviço), e se tópica é também a antevisão do futuro que o espera, sem qualquer gosto ou alegria, menos tópica é a referência explícita ao desejo físico feita no início da 3ª estrofe (toda ela, aliás, composta em forma de perguntas retóricas). Também original é a progressiva despedida final, que começa com a referência ao "muito que tem de andar", e termina com a afirmação da sua dignidade: do serviço que prestou à sua dama irá sem vergonha a qualquer lugar. E, repetindo no último verso a fórmula usual de despedida, como dissemos, o trovador "sai de cena" - ou seja, encerra a sua cantiga com um belo e eficaz efeito teatral.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 813, V 397

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 813

Cancioneiro da Vaticana - V 397


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas