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  (linha 11)

João Garcia de Guilhade


Estas donzelas que aqui demandam      ←
os seus amigos que lhis façam bem,      ←
 querrei, amigas, saber ũa rem:      ←
que [é] aquelo que lh'e[le]s demandam?      ←
5Ca um amigo que eu sempr'amei      ←
 pediu-mi [a] cinta e já lha er dei,      ←
mais eles cuido que a[l] lhis demandam.      ←
  
O meu seria perdudo conmigo      ←
por sempr', amigas, se mi pediss'al;      ←
10mais pedir cinta nom é nulho mal,      ←
e por aquesto nom se perdeu migo;      ←
mais se m'el outra demanda fezesse,      ←
Deus me cofonda, se lh'eu cinta desse,      ←
e perder-s'ia já sempre [con]migo.      ←
  
 15Maila donzela que muit'há servida      ←
 o seu amigo, esto lh'é mester:      ←
dé-lhi sa cinta, se lhi dar quiser,      ←
se entender que a muito há servida;      ←
mais se x'el quer outro preito maior,      ←
20maldita seja quem lh'amiga for      ←
e quem se del tever por [bem] servida.      ←
  
 E de tal preito nom sei end'eu rem;      ←
mais, se o ela por amigo tem,      ←
nom lhi trag'el lealdade comprida.      ←



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Nota geral:

Com aparente ingenuidade (mas com implícita ironia) a donzela pergunta à amigas o que será essa coisa do bem que os amigos pedem às donzelas. É que ela até já deu a sua faixa bordada ao seu amigo, mas provavelmente será outra coisa que eles querem delas. Enfim, se o seu amigo lhe pedisse algo mais, poderia estar certo que nem a cinta teria e acabava-se logo tudo. Porque, se dar a cinta como recompensa de um amor leal está perfeitamente bem, aquela que aceitar outro género de pedidos só pode ser amaldiçoada.
Por esta interposta voz feminina, João Garcia de Guilhade faz aqui uma das mais certeiras, irónicas e divertidas críticas ao universo retoricamente fechado das cantigas de amor e aos seus eufemismos (que, de resto, ele não deixa de usar nas suas próprias cantigas de amor).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amigo
Mestria
Cobras singulares
Dobre: (vv. 1, 4, 7 de cada estrofe)
demandam (I), (com)migo (II), servida (III)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 776, V 359

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 776

Cancioneiro da Vaticana - V 359


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas