Toponímia referida na cantiga:
  (linha 7)

João Soares Somesso


 Ogan', em Muïmenta,      ←
disse Dom Martim Gil:      ←
- Viv'em mui gram tormenta      ←
Dona Orrac'Abril      ←
5       per como a quer casar seu pai;      ←
       e a quem lho enmenta:      ←
 cedo moira no Sil      ←
        e ela, se se com Chora vai.      ←
  
E diss'em Muïmenta      ←
10como vos [eu] direi:      ←
- Ela viv'em tormenta,      ←
segundo o eu sei,      ←
       per como a quer casar seu pai;      ←
       e a quem lho enmenta,      ←
15cedo o mat'el-rei      ←
       e ela, se se com Chora vai.      ←
  
El diss'em Muïmenta,      ←
assi me venha bem:      ←
- Viv'em tam gram tormenta      ←
20que quer perder o sem,      ←
       [per como a quer casar seu pai];      ←
       e a quem lho enmenta,      ←
cedo moira por en      ←
       e ela, se se com Chora vai.      ←



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Nota geral:

Cantiga que tem como tema o casamento de D. Urraca Abril, filha do poderoso rico-homem D. Abril Peres de Lumiares, com João Martins de Riba de Vizela, dito o Chora, casamente esse que, pelo que percebemos, se terá realizado contra a vontade da noiva.
Para além da componente pessoal, a cantiga tem seguramente uma componente política, como o próprio casamento a tinha. Composta provavelmente nos finais dos anos trinta do século XIII, anos de tensão que precederam a guerra civil que depôs D. Sancho II (1245-1248), a composição deverá ser entendida nesse contexto. De facto, tanto o pai da noiva, D. Abril Peres, como o noivo, D. João Martins Chora, foram partidários do conde de Bolonha (futuro Afonso III), enquanto que a outra personagem que aparece na cantiga a lamentar a desdita da noiva, D. Martim Gil de Soverosa, foi um dos mais fiéis partidários de D. Sancho II, como seu valido e privado (tal como, de resto, o irmão de D. João Martins, D. Gil Martins de Riba de Vizela). Não sabemos, aliás, qual é o papel de D. Martim Gil na trama político-sentimental aludida na cantiga, mas pode aceitar-se a sugestão de Carolina Michaelis1 de que ele seria um pretendente rejeitado. Acrescente-se que D. Abril Peres de Lumiares acabou, aliás, por morrer às suas mãos na lide de Gaia, o recontro armado que, em 1245, deu início à guerra civil.

Referências

1 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. II, Lisboa, Imprensa nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904), p. 298.



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Refrão
Cobras rima a uníssona, rima b singular
Palavra(s)-rima: (v. 1 de cada estrofe)
Muimenta
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 104
(C 104)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 104


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas