João Garcia de Guilhade


A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
5e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.
  
E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
10trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:
  
por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
15ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:
  
sandec'e morte, que busquei sempr'i,
20e seu amor me deu quant'eu buscava!



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Nota geral:

Original variação sobre o tema da indiferença da senhora: se a dama por quem o trovador trovava sempre se mostrou indiferente, agora que ele enlouqueceu, indiferente continua. No final da cantiga, o trovador, jogando com as expetativas do ouvinte/leitor, conclui que, na verdade, conseguiu dela tudo que pensava conseguir: loucura e morte, que foi o que sempre procurou. Note-se ainda que a 2ª e 3ª estrofes desenvolvem, também de forma original e indireta, o tradicional elogio da sua senhora.
Chamamos ainda a atenção para os curiosos comentários que se encontram na margem do Cancioneiro da Ajuda (transcritso nas notas M), feitos por um leitor de meados do século XV (e predominantemente irónicos).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 232, B 422, V 34

Cancioneiro da Ajuda - A 232

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 422

Cancioneiro da Vaticana - V 34


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas