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  (linha 23)

Pero Garcia Burgalês


Ai eu coitado! e quand'acharei quem      ←
me dê conselho como possa ir      ←
 a um logar u eu querria ir?      ←
E nom posso! Nem ar poss'achar quem      ←
5me dê conselho como possa ir      ←
veê'la dona que por meu mal vi,      ←
mais fremosa de quantas donas vi,      ←
  
e por que moiro, querendo-lhe bem;      ←
ca tam fremosa dona nunca fez      ←
10Nostro Senhor, de quantas donas fez,       ←
nem tam comprida de tod'outro bem.      ←
Por esta moiro, que Deus a tal fez!      ←
E nom lho disse, se me valha Deus,      ←
ca nom ousei, assi me valha Deus!      ←
  
 15ca me quis ante mia coita 'ndurar      ←
 ca me perder com tam bõa senhor,      ←
a que deu tanto bem Nostro Senhor;      ←
e quero-m'ante mia coita 'ndurar.      ←
Mais rogarei tanto Nostro Senhor:      ←
20que El me lev'u a possa veer;      ←
ca muit'há já que nom pude veer      ←
  
nẽum prazer, ca nom fui a logar      ←
u a eu viss', e por aquesto nom      ←
vi nunca mais prazer; nem jamais nom       ←
25mi ar veerei, se nom for a logar      ←
u veja ela; ca sei eu que nom      ←
verei prazer e sempr'haverei mal,      ←
se nom vir ela, que vi por meu mal.      ←
  
E, meus amigos, se nom est assi,      ←
30nom me dê Deus dela bem, nem de Si!      ←
  
E se nom, leve Deus, u som os seus,       ←
estes meus olhos, que vejam os seus!      ←
  
E se os virem, verram gram prazer,      ←
ca muit'há que nom virom gram prazer!      ←
  
35Leve-os Deus cedo, que pod'e val,      ←
u verram ela, que tam muito val!      ←



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Nota geral:

Começando por lamentar que ninguém lhe sugira um meio de ir até onde está a sua senhora, o trovador faz o seu elogio: a dona por quem morre é a mais formosa e a de maiores qualidades. Mas acrescenta que nunca ousou confessar-lhe o seu amor, preferindo suportar em silêncio o sofrimento, com receio de a perder. Pede, no entanto, a Deus que o leve para perto dela, pois já há muito a não vê. Pois só recuperará a alegria quando a vir.
A composição salienta-se sobretudo pela sua forma elaborada, na qual Pero Garcia Burgalês é mestre, aqui assente na sucessão de dobres em posição de rima.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras singulares (rima a dobla)
Dobre: (vv. 1 e 4 de cada estrofe)
quem (I), bem (II), ante mia coita 'ndurar (III), a logar (IV);
(vv. 2, 3, 5) ir (I), fez (II), senhor (III), nom (IV);
(vv. 6, 7) vi (I), si me val
Findas (4)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 102, B 209/210

Cancioneiro da Ajuda - A 102

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 209/210


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas