Pero Garcia Burgalês


Se eu a Deus algum mal mereci,
gram vingança soub'El de mim prender:
ca me fez mui bõa dona veer
e mui fremos'e ar fez-me des i
5que lhe quis sempre doutra rem melhor;
e pois mi aquesto fez Nostro Senhor,
ar fez ela morrer e leixou-mi
  
viver no mundo; e mal dia naci
por eu assi eno mundo viver
10- u Deus sobre mim há tam gram poder
que m'eno mundo faz viver assi
sem ela; ca bem sõo sabedor
d'haver gram coita mentre vivo for,
pois nom vir ela que por meu mal vi!
  
15E por meu mal, amigos, nom morri
u eu primeir'oí dela dizer
que morrera; ca podera perder
vedes qual coita per morrer log'i:
a coita de quantas Deus fez maior,
20em que vivo polo seu amor,
pero que nunca bem dela prendi.



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Nota geral:

Se acaso o trovador mereceu algum castigo de Deus, Ele bem se soube vingar: mostrou-lhe uma dona formosa, fez com que ele a amasse, e logo depois fez a dona morrer, deixando-o a ele vivo - e pior sofrimento não há. O seu mal foi não ter morrido também, assim que lhe chegou tão funesta notícia. Teria evitado a dor imensa que sente e que o acompanhará toda a vida.
A morte da amada não é um tópico frequente e quando surge numa cantiga, como aqui, há lugar para pensar que a dona chorada será real (fosse a amada do trovador ou fosse a composição uma homenagem a uma dama falecida).
De resto, Pero Garcia retoma o tema em mais três cantigas, uma delas onde à amada morta e recordada se junta um novo amor, e duas outras onde o seu desespero se volta contra Deus, mas aí num registo muito próximo do satírico. Todo este ciclo, diga-se, é bastante original.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 100, B 207

Cancioneiro da Ajuda - A 100

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 207


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas