Antroponímia referida na cantiga:
  (linha 1)

Pedro Amigo de Sevilha


 Dom Estêvam, oí por vós dizer,      ←
d'ũa molher que queredes gram bem,      ←
que é guardada, que, por nulha rem,      ←
non'a podedes, amigo, veer;      ←
5e al oí, de que hei gram pesar:      ←
que quant'houvestes, todo no logar      ←
 u ela é, fostes i despender.      ←
  
 E pois ficastes probe, sem haver,      ←
 nom veedes ca fezestes mal sem?      ←
10Siquer a gente a gram mal vo-lo tem,      ←
por irdes tal molher gram bem querer,      ←
que nunca vistes riir nem falar;      ←
e, por molher tam guardada, ficar      ←
vos vej'eu pobr'e sem conhocer.      ←
  
15E nom veedes, home pecador,      ←
qual est o mundo e estes que i som?      ←
Nem conhocedes, mesquinho, que nom      ←
se pagam já de quem faz o peior?      ←
E gram sandice d'hom'é, por oir      ←
20bem da molher guardada, que nom vir,      ←
d'ir despender quant'há por seu amor.      ←
  
E bem vos faç', amigo, sabedor      ←
que andaredes, por esta razom,      ←
 per portas alheas mui gram sazom:      ←
25por que fostes querer bem tal senhor,      ←
per que sodes tornad'em pam pedir?      ←
E as guardas nom se querem partir      ←
de vós, e guardam-na por en melhor.      ←



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Nota geral:

Cantiga bastante sibilina, dirigida a um D. Estêvão, a propósito da sua teimosia em perseguir uma dona muito guardada, com quem ele gastaria rios de dinheiro. Equivocamente, as alusões homossexuais também fazem parte deste programa satírico.
Embora acusações semelhantes sejam igualmente dirigidas por outros trovadores a um D. Estêvão que parece ser português, é possível, como sugere Vicenç Beltran1, que Pedro Amigo se dirija aqui ao rico-homem castelhano D. Esteban Fernandéz de Castro, um dos protagonistas da revolta dos nobres castelhanos contra Afonso X, ocorrida entre os anos 1272 e 1274, e que foi um dos conflitos marcantes do seu reinado. Na verdade, e no que toca a D. Esteban de Castro, adiantado-mor da Galiza desde 1265 (cargo de que foi demitido aquando da rebelião), um dos pontos em litígio era, da parte de D. Esteban, a alegação de que o rei mantinha presa D. Aldonça Rodríguez, sua mulher, alegando, por sua vez, Afonso X estar ela apenas sob sua proteção, visto não ser ainda sua mulher, mas apenas sua desposada (noiva ou prometida). Filha de D. Afonso de Molina e neta de Afonso IX de Leão, D. Aldonça era uma das jovens herdeiras mais cobiçadas do reino, e, por isto mesmo, certamente uma importante peça no xadrez político do conflito.
A composição de Pedro Amigo parece adaptar-se perfeitamente a este contexto, sendo por certo mais um caso em que, por detrás de uma aparente e jocosa sátira de costumes, se visam objetivos políticos muito concretos, no caso, o ataque a um dos protagonistas da rebelião contra o monarca, de cuja posição Pedro Amigo se faz eco aqui. Acrescente-se que D. Aldonça acabará efetivamente por casar com D. Esteban (que será igualmente reposto no seu cargo, em 1276).

Referências

1 Beltran, Vicenç (2000), “Estéban Fernández de Castro y Fernán Díaz Escalho”, Madrygal: Revista de Estudios Gallegos, 3, Madrid, Universidad Complutense, servicio de Publicaciones.
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Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1660, V 1194

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1660

Cancioneiro da Vaticana - V 1194


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas