Toponímia referida na cantiga:
  (linha 6)

Pero Mendes da Fonseca


Chegou Paio de más artes      ←
 com seu cerame de Chartes;      ←
e nom leeu el nas partes      ←
que chegasse há um mês      ←
5e do lũes ao martes      ←
       foi comendador d'Ocrês.      ←
  
 [As]semelha-me busnardo,      ←
vind'em seu ceramem pardo;      ←
 e, u nom houvesse reguardo      ←
10em nẽum dos dez e três,      ←
log'houve mant'e tabardo      ←
       e foi comendador d'Ocrês.      ←
  
E chegou per u ham grada,      ←
descalço, gram madurgada:      ←
 15u se nom catavam nada      ←
d'um hom[e] atam rafez,      ←
 cobrou manto com espada      ←
       e foi comendador d'Ocrês.      ←



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

Com uma notável musicalidade, esta cantiga satiriza o que parece ser a ascensão fulgurante de um pobretanas manhoso ao cargo de comendador de Uclês, ou seja, ao importante posto de Mestre da Ordem Militar de Santiago para a província de Castela.
De facto, como sugeriram Elisa Priegue1 e Ana Freixas2, é possível que este alegado pobretanas aqui referido não seja outro senão o célebre D. Paio Peres Correia, poderoso cavaleiro português que foi sucessivamente Mestre provincial do Alentejo (e principal artífice da sua reconquista - sendo, por isso, citado n´Os Lusíadas), Mestre provincial de Castela em 1241, e, finalmente, Grão-Mestre da Ordem de Santiago durante largos anos (1242-75). Para além do que se sabe ter sido o caráter conflituoso e irrascível de D. Paio Peres Correia, que certamente lhe criaria inimigos, mesmo no interior da Ordem, é possível que este ataque do também português Pero Mendes da Fonseca se insira num cenário concreto de conflitos políticos, provavelmente relacionados com a revolta nobiliárquica contra Afonso X, conflitos esses que se prolongariam entre os portugueses presentes na corte castelhana, onde a composição terá sido composta. Na verdade, as boas relações de D. Paio Peres com o monarca (e que já vinham do reinado anterior de Fernando III) parecem ter-se deteriorado acentuadamente por volta de 1272, em razão do alegado apoio que o Mestre de Santiago terá dado aos revoltosos (Gonzalez Jimenez3, que cita uma carta do rei a seu filho D. Fernando, expondo as acusações). A cantiga datará, pois, eventualmente dessa época, marcando o apoio de Pero Mendes da Fonseca às posições do rei.
Note-se a curiosa referência inicial a uma personagem dos contos populares portugueses, também identificada com o Diabo4, o "Paio das más artes" (no que será também uma referência equívoca ao nome do satirizado).

Referências

1 Ferreira Priegue, Elisa (1978-1980), “Chegou Paio das maas artes…(CNB1600 = CV 1132)”, Cuadernos de Estudios Gallegos, XXXI.

2 Freixas, Ana Mussons (2005), “El escárneo de Pêro Meéndez da Fonseca”, La língua y la litertura en tiempos de Alfonso X. Actas del Congreso Internacional, Múrcia, 1984, Murcia.

3 González Jiménez, Manuel (1999), Alfonso X, Burgos, Editorial La Olmeda, 2ª Ed., p. 306.

4 Tato Fontaína, Laura (2007), O Cancioneiro de Pero Meendiz da Fonseca, Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, Centro Ramón Piñeiro, 48.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Refrão
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1600, V 1132
(C 1600)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1600

Cancioneiro da Vaticana - V 1132


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas