Toponímia referida na cantiga:
  (linha 18)

Gil Peres Conde


Quem me podia defender      ←
senom Deus d'um pelejador,      ←
porque me faz departidor      ←
e diz-mi, ao que hei dizer:      ←
5- Dizedes neciidade.      ←
 Tod'esto lh'hei eu a sofrer,      ←
e ai Deus, del me guardade      ←
aqui ena pousada.      ←
  
É tam louco, que tal med'hei:      ←
 10que me sacará de meu sem      ←
e que verremos a mais en;      ←
ante me lhi [eu] calarei,      ←
 ca, se mal contecesse,      ←
(de que me lh'eu bem guardarei)      ←
15que lh'esto nom sofresse,      ←
dar-m'-ia gram punhada.      ←
  
Quand'ora diz que me ferrá,      ←
porque falei em Portugal,      ←
onde mi som natural,      ←
20se por esto ferir há,      ←
hoje foss'eu ferido,      ←
por que perdesse medo já,      ←
que fosse del partido      ←
toda esta andada.      ←
  
25Morto será quem m'ajudar,      ←
ca el de tal coraçom é,      ←
quer de cavalo quer de pé,      ←
  ca se querrá migo matar;      ←
já eu lhi fogiria,      ←
30mais hei medo de m'acalçar;      ←
e acalçar-se-m'-ia:      ←
trag'a besta cansada.      ←
  
Se melhor quisess'emparar      ←
mia fazend', a terria      ←
35per i peior parada.      ←
  
Se o mat'ou se me matar...      ←
de qual quer se[e]ria      ←
de ventura minguada.      ←



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Nota geral:

As repetidas queixas de Gil Peres Conde quanto à sua má estrela em Castela dizem agora respeito a um castelhano violento e brigão, amador de querelas inúteis, que o trovador, aparentemente receoso, procura evitar, fechando-se na sua "pousada". Mas o interesse desta curiosa cantiga reside, em grande parte, num facto que é raro nestes trovadores e jograis que parecem, antes de mais, ibéricos: na afirmação clara da sua identidade portuguesa, face à perseguição de um castelhano. Assim, e talvez pela primeira vez, parecem aqui delinear-se dois tipos culturais claramente distintos e com os traços que vão perdurar longamente na cultura peninsular: o português comedido e prudente, o espanhol, bravo e fanfarrão.
Repare-se ainda na curiosa estrutura rítmica da composição, com versos agudos de 8 e graves de 6 sílabas. Os últimos versos de cada estrofe são a chamada palavra perduda. Encontramos, aliás, um esquema semelhante numa cantiga de Airas Engeitado, pelo que é possível que uma das composições seguisse a outra.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares
Palavra perduda: v. 8 de cada estrofe
Finda (2)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1526

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1526


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas