Vasco Gil, Afonso X


- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
5quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
  
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
10e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
  
15- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
20(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
  
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
25já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.



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Nota geral:

Esta tenção entre Vasco Gil e Afonso X tem como pretexto um manto que, pelo que nos é dado perceber, alguém (ou o próprio D. Vasco) teria emprestado ao rei (na caça, numa aventura noturna?), manto esse que rei teria feito substituir por um melhor, ao restituí-lo ao seu legítimo proprietário. Trata-se, pois, pelo menos aparentemente, de uma brincadeira entre os dois adversários, que Afonso X aproveita para, no final, enviar um remoque a um cavaleiro da Ordem do Hospital, que não sabemos se será o próprio Vasco Gil (fidalgo português de quem se sabe ter, de facto, feito doações à Ordem, sem se poder assegurar que dela tenha sido cavaleiro), ou um outro cavaleiro difícil de identificar. Seja quem for esse cavaleiro hospitalário, é provável, no entanto, que o rei português com vontade de "fazer habilidades", também citado neste final, seja D. Sancho II (de quem Afonso X, ainda infante, foi aliado), e que a alusão tenha como motivo próximo a atitude dos Hospitalários durante a guerra civil que conduziu à sua deposição (fortemente beneficiados por D. Sancho, os Hospitalários acabaram, na verdade, por abandoná-lo). Recentemente, no entanto, Kurtz1, num estudo detalhado da cantiga, sugeriu que este rei poderia ser Afonso III.
A composição deve ser, pois, pouco posterior à guerra civil portuguesa, e datar, como sugeriu Carolina Michaelis2, do primeiro ano do reinado do Rei Sábio (1252).

Referências

1 Kurtz, William S. (2013), "Propuesta de interpretación de Rei D. Afonso, se Deus vos pardom", in Revista de História da Sociedade e da Cultura, 13, Coimbra.
      Aceder à página Web


2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (2004), "Uma cantiga de manto", in Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português (trad. do texto de 1905) , Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis.



Nota geral


Descrição

Tenção
Mestria
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1512
(C 1512)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1512


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas