Antroponímia referida na cantiga:
  (linha 14)

Vasco Peres Pardal, Pedro Amigo de Sevilha


- Pedr'Amigo, quero de vós saber      ←
ũa cousa que vos ora direi;      ←
e venho-vos preguntar, porque sei      ←
que saberedes recado dizer:      ←
5de Balteira, que vej'aqui andar,      ←
e vejo-lhi muitos escomungar,      ←
dizede: quem lhi deu end'o poder?      ←
  
- Vaasco Pérez, quant'eu aprender      ←
púdi desto, bem vo-lo contarei:      ←
10este poder ante tempo d'el-rei      ←
Dom Fernando já lhi virom haver;      ←
mais nom havia poder de soltar;      ←
mais foi pois um patriarca buscar,      ←
 fi'd'Escalhola, que lhi fez fazer.      ←
  
15- Pedr'Amigo, sei-m'eu esto mui bem:      ←
que Balteira nunca home soltou;      ←
e vi-lh'eu muitos que escomungou,      ←
 que lhe peitarom grand'algo por en,      ←
que os soltass', e direi-vos eu al:      ←
20fi'd'Escalhola nom há poder tal      ←
per que solt', ergo seus presos que tem.      ←
  
- Vaasco Pérez, bem de Meca vem      ←
este poder; e poilo outorgou      ←
o patriarca, des i mal levou      ←
25sobre si quanto se fez em Jaen      ←
e em Eixarês, u se fez muito mal;      ←
e por en met'em escomunhom qual      ←
 xi quer meter e qual quer saca en.      ←
  
- Pedr'Amigo, esto vos nom creo eu:      ←
 30que o poder que Deus em Roma deu,      ←
que o Balteira tal de Meca tem.      ←
  
- Vaasco Pérez, há x'em Meca seu      ←
poder, e o que Deus em Roma deu      ←
diz Balteira que todo nom é rem.      ←



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Nota geral:

Vasco Peres Pardal e Pedro Amigo de Sevilha debatem, nesta tenção, o tema das artes mágicas da conhecida soldadeira Maria Balteira. Onde e com quem as teria ela aprendido? A tenção transforma-se assim numa jocosa biografia de Maria Balteira, que teria começado cedo a sua "carreira" (já no reinado de D. Fernando, pai de Afonso X, o que é uma forma indireta de lhe chamar velha), num percurso que incluiria mesmo alguns nomes sonantes do próprio campo muçulmano.
O curioso desta tenção é que ela nos parece demonstrar que, de facto, Maria Balteira teria um estatuto particular na corte de afonsina e mesmo um certo poder. Na verdade, a alusão aos Escalholas, ou Banû Ashqîlûla, grande família árabe da Andaluzia (cujos membros foram aliados de Afonso X contra o rei de Granada, Ibn al-Ahmar), levou Menéndez Pidal e mesmo o historiador Ballesteros Beretta a pensarem que o rei teria eventualmente utilizado a soldadeira como instrumento político, enviando-a numa embaixada secreta que por volta de 1264 teria ido a Granada selar a aliança1. Se bem que não se conheçam fontes documentais que nos permitam confirmar ou desmentir a participação de Maria Balteira nestas movimentações políticas, o certo é que a tenção, que data certamente desses anos (talvez de 1266), faz uma alusão clara às relações entre a soldadeira e o campo muçulmano, e é possível que não seja apenas, como sugere Rodrigues Lapa, para brincar com a suposta atração de Maria Balteira pelo Islão.
Uma outra hipótese de leitura (que não exclui, de resto, as anteriores) é a de considerar que Maria Balteira é aqui apenas um jocoso pretexto para os dois intervenientes tecerem comentários mais ou menos velados ao comportamento político dos Escalholas na complexa situação então vivida.

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.



Nota geral


Descrição

Tenção
Mestria
Cobras doblas
Finda (2)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1509
(C 1508)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1509


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas