Cantiga referida em nota
  (linha 24)

João Garcia de Guilhade


Par Deus, Lourenço, mui desaguisadas
novas agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
5Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
 mentr'eu viver, seram amas loadas.
  
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
10Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
 nem lhis trobei nunca polas maladas.
  
15Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
20sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
  
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.



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Nota geral:

Esta cantiga integra-se na chamada "questão da ama", polémica que animou o círculo trovadoresco (muito provavelmente de Afonso X), e que foi provocada pela cantiga de amor que D. João Soares Coelho dirige a uma ama de leite, destinatária pouco habitual neste género de composições. Na sequência deste elogio da "ama", e para além das zombarias que lhe foram diretamente dirigidas, João Soares compôs também uma tenção com Lourenço, onde o acusava de não ser o verdadeiro autor de uma outra anterior tenção (não sabemos exatamente qual), mas sim o seu amo, João Garcia de Guilhade. Guilhade responde-lhe, pois, aqui, assumindo-se realmente como autor dessas tenções - o que é também uma forma de desautorizar e satirizar Lourenço. Esta cantiga tem, assim, um alvo duplo: no início, Lourenço, pela confirmação da jocosa acusação de João Soares Coelho; em seguida este último, pelos seus estranhos gostos em matéria de amor cortês. Note-se o curioso elogio final às suas próprias amas de leite.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares (rima a uníssona)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1501

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1501


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas