João Garcia de Guilhade


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Nunca [a]tam gram torto vi
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
5o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.
  
E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
10des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!
  
15Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
20des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!



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Nota geral:

Sátira a um infanção que, por uma vez, sai fora do tradicional ataque à sua pelintrice, para se centrar na sua vida conjugal. Guilhade queixa-se de não receber nada em troca dos serviços prestados, que incluem o de ser pai dos filhos que o infanção julga seus. De facto, o desdém que o infanção lhe vota, impede-o de ver a óbvia situação de ele ser amante da mulher (a sua senhor. como a designa, num uso irónico da terminologia trovadoresca).
Para além do retrato social do nobre arrogante (e estúpido), note-se a completa inversão dos papéis do amante e do marido que o trovador aqui opera. O amante cortês, cujas aventuras amorosas dependem, em princípio, do “segredo”, reclama o direito de publicamente dar o nome a uma prole, e considera o marido legítimo como obstáculo ao reconhecimento legal dessa paternidade, expresso pelo termo jurídico “outorgar” (v. final). Com este original expediente, Guilhade volta a explorar o lado “realista” do amor cortês.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1498, V 1108

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1498

Cancioneiro da Vaticana - V 1108


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas