Toponímia referida na cantiga:
  (linha 4)

Airas Peres Vuitorom


 Dom Fernando, vejo-vos andar ledo      ←
com deantança que vos deu el-rei;      ←
adeantado sodes, e[u] o sei,      ←
 de Sam Fagundo e d'Esturas d'Ovedo;      ←
5e pois vos Deus ora tanto bem fez,      ←
punhade d'ir adeant'ũa vez,      ←
  ca, atrá aqui, fostes sempr'a derredo.      ←
  
Ca fostes sempre desaventurado,      ←
mais, pois vos ora Deus tanto bem deu,      ←
10Dom Fernando, conselhar-vos quer'eu:      ←
 nom vos ar lev'atrás vosso pecado;      ←
pois vos el-rei meteu em tal poder,      ←
 sinher, querede-mi desto creer:      ←
adeant'ide, come adeantado.      ←
  
15E pois sodes ora tam bem andante,      ←
bem era d'home do vosso logar      ←
dess'olho mao de vos ar quebrar,      ←
e nom andar com'andávades ante:      ←
 ca somos hoj'e nom seremos crás!      ←
20E pois punhastes sempre d'ir atrás,      ←
ar punhad'agora d'ir adeante.      ←



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

Pelas referências geográficas, este D. Fernando será o mesmo Fernão Dias da cantiga que precede esta nos Cancioneiros. É a sua nomeação como adiantado das Astúrias que aqui se saúda, noutro malicioso equívoco, baseado das expressões "ir adiante" e "ir atrás".
Não tem sido fácil identificar esta personagem, satirizada pelos trovadores afonsinos, num contexto que parece ser o da rebelião nobiliárquica contra o monarca, ocorrida entre os anos de 1271 e 1274, uma vez que não há registo de nenhum alto funcionário com este nome nesta época. Note-se, no entanto, que, como nos informa Braulio Vásquez Campos1, um dos pontos contestados pelos revoltosos dizia respeito exatamente à nomeação preferencial de meirinhos régios, geralmente homens do rei, em detrimento de adiantados, cargo este normalmente desempenhado pela alta nobreza. Assim, numa das exigências endereçados a Afonso X em 1272, nas cortes de Burgos, pode ler-se: Et porque el rey tenía puestos sus merinos en las merindades de Castilla e de Léon, que fazían justicia, pidiéronle que tirase los merinos e pusiese adelantados. Como comenta Vásquez Campos1, a grande nobreza pretendia assim colocar um freio numa política régia centralizadora, que prejudicava os seus interesses e privilégios (nomeadamente na área da justiça). Em Leão e Astúrias, por exemplo, e pelo menos durante os anos de 1271 e 1272, o cargo esteve sob o controlo direto do príncipe herdeiro D. Fernando, que delegou o seu exercício em oficiais menores.
Parece ser este, de facto, o contexto das cantigas dirigidas a Fernão Dias, que poderia ser, eventualmente, um desses funcionários menores, aqui a servir de alvo indireto contra os revoltosos: comentando ironicamente pretensa cedência real à exigências dos ricos-homens, o círculo do Rei Sábio congratula-se com a nomeação de um adiantado - se bem que não exatamente a personagem esperada pelos revoltosos.

Referências

1 Vásquez Campos, Braulio (2003), "Fronteras y adelantamientos en epoca de Alfonso X", in Historia. Instituciones. Documentos, 30 .



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1480, V 1091

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1480

Cancioneiro da Vaticana - V 1091


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas