João Baveca


Um escudeiro vi hoj'arrufado
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
5- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado
  
de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
10e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.
  
15E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
20meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.
  
E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.
  
25E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.



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Nota geral:

Teremos que entender esta cantiga num contexto em que as relações sexuais com mouros e judeus eram sujeitas a severas sanções, pelo menos teoricamente. Para pagar uma dívida a um escudeiro, a soldadeira Maior Garcia recorre, pois, aos seus conhecimentos: um judeu e sobretudo um mouro, disposto a pôr o dinheiro à sua disposição, mas com a condição de garantir-se com uma "carta de penhor". Tudo isto funciona, obviamente, como equívoco.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras uníssonas (rima c singular)
Finda (2)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1454, V 1064

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1454

Cancioneiro da Vaticana - V 1064


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas