João Soares Coelho


Joam Garcia tal se foi loar
e enfenger que dava [i] sas doas
e que trobava por donas mui boas;
e oí end'o meirinho queixar
5e dizer que fará, se Deus quiser,
que nom trobe quem trobar nom dever
por ricas donas nem por infançoas.
  
E oí noutro dia en queixar
ũas coteifas e outras cochõas,
10e o meirinho lhis disse: - Varõas,
e nom vos queixedes, ca se eu tornar,
eu vos farei que nẽum trobador
nom trobe em talho senom de qual for,
nem ar trobe por mais altas pessõas.
  
15Ca manda 'l-rei, porque há en despeito,
que trobem os melhores trobadores
polas mais altas donas e melhores,
e tem assi por razom, com proveito;
e o coteife que for trobador
20trobe, mais cham'a coteifa "senhor",
e andarám os preitos com dereito.
  
E o vilão que trobar souber
que trob'e chame "senhor" sa molher,
e haverá cada um o seu dereito.



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Nota geral:

Mais uma cantiga que teremos que situar no contexto da polémica "questão da ama" de que D. João Soares Coelho foi protagonista. De facto, a composição à qual o trovador alude no início desta cantiga deverá ser a que João Garcia de Guilhade endereça ao seu jogral Lourenço e onde afirma que trova por boas donas, sim, mas nunca por amas de leite. Esta é a resposta de João Soares, que nela pretende remeter o segrel ao seu lugar: para evitar protestos das amigas, o vilão que se meta a trovador deve dirigir-se exclusivamente às mulheres da sua classe. Deverá ter-se em conta o lado lúdico de toda esta "polémica".



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras doblas (rima c singular)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

V 1024

Cancioneiro da Vaticana - V 1024


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas