Pero Garcia Burgalês


Maria Negra, des[a]ventuirada!
E por que quer tantas pissas comprar,
pois lhe na mãa nom querem durar
e lh'assi morrem aa malfada[da]?
5E num caralho grande que comprou,
o onte ao serãa o esfolou,
e outra pissa tem já amormada.
  
E já ela é probe tornada,
comprando pissas, vedes que ventuira!
10Pissa que compra pouco lhe dura,
sol que a mete na sa pousada;
ca lhi convém que ali moira entom
de polmoeira ou de torcilhom,
ou, per força, fica end'aaguada.
  
15Muit'é pera ventuira menguada,
de tantas pissas no ano perder,
que compra caras, pois lhe vam morrer;
e est'é pola casa molhada
em que as mete, na estrabaria;
20[e] pois lhe morrem, a velha sandia
per pissas será em terra deitada.



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Nota geral:

É novamente a soldadeira Maria Negra, já troçada em duas cantigas anteriores, o alvo desta composição de Pero Garcia Burgalês, uma das mais obscenas do cancioneiro satírico. Servindo-se de uma linguagem direta, a cantiga é igualmente um repositório das doenças do gado cavalar, cujo conhecimento deveria ser, na época, do domínio comum. Na verdade, o trabalho de Carolina Michaelis sobre o vocabulário do Tratado de Alveitaria de Mestre Giraldo1 permite compreender que há todo um equívoco erótico que assenta nos sintomas e manifestações específicas das várias doenças aludidas (e que explicamos nas entradas de glossário).

Referências

1 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1910), "Mestre Giraldo e os seus tratados de Alveitaria e Cetraria", in Revista Lusitana, XIII .
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Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares (rima a uníssona)
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Fontes manuscritas

B 1384, V 993

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1384

Cancioneiro da Vaticana - V 993


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas