Mem Rodrigues de Briteiros ou João Fernandes de Ardeleiro

Rubrica:

Esta cantiga foi feita a um escudeiro i deitado que havia [...]


  Pero Colhos é deitado
da terra pelos meirinhos,
porque britou os caminhos;
mais de seu padr'hei gram dó:
5nom há mais d'um filho só
e ficou dele lançado.
  
E foi-s'el morar a França
e desemparou sa terra,
ca nom quis com el-rei guerra;
 10mais lá coit'há de sa madre
porque ficou a seu padre
del no coraçom a lança.
  
 E foi-s'el morar a Coira,
que é terra muit'esquiva,
15u coidamos que nom viva;
 e seu padre e seu linhage
 da lança que del[e] trage
todos cuidamos que moira.
  
E el se foi certamente,
20porque [de pram] nom podia
na terra guarir um dia;
ca eu a seu padre ouvi-lho:
que a lança do seu filho
eno coraçom a sente.



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Nota geral:

Cantiga cujo sentido não é totalmente claro, visando um tal Pero Colhos (ou Colos, ou mesmo Coelho, se aceitarmos a correção de Lapa1), escudeiro expulso da sua terra, por "britar os caminhos" (v.3), expressão que, em sentido restrito, significará violar a livre circulação nos caminhos e, possivelmente, assaltar. A cantiga, no entanto, não se centra especialmente neste facto, mas alude sobretudo, em forma de equívoco, ao desgosto do pai, que fica "lançado” do seu único filho (afastado/ferido de lança). Na verdade, não é impossível que este termo (e os outros equivalentes que a cantiga insistentemente repete), para além do seu sentido metafórico (uma dor lancinante), possa também ser lido em sentido literal, ou seja, que o trovador aluda a um qualquer confronto violento entre pai e filho - e talvez tenham sido esses, quiçá, alguns dos "caminhos" violados pelo escudeiro. Infelizmente a rubrica explicativa que acompanhava a cantiga chegou-nos muito truncada (e apenas em B), de modo que só poderemos fazer suposições.
Assim, e partindo da correção do apelido proposta por Lapa, uma das hipóteses que tem sido avançada é a de Pero Coelho ser Pero Anes Coelho, filho do trovador João Soares Coelho, que teve efetivamente problemas com a justiça, por atropelos vários, problemas que o terão levado a refugiar-se temporariamente na Galiza. Leontina Ventura e Resende de Oliveira (20032), partindo deste pressuposto, datam a composição de 1278, ano em que temos registo desses acontecimentos (e que é, de resto, o ano anterior à data provável da morte de João Soares Coelho). Embora a classificação da personagem como escudeiro, feita pela rubrica, possa conferir algum grau de incerteza a esta hipótese, o certo é que ela se adequa perfeitamente à cantiga de Mem Rodrigues.

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxia.

2 Ventura, Leontina e Oliveira, António Resende de (2003), "Os Briteiros (séculos XII-XIV) 4. Produção Trovadoresca", in Os Reinos Ibéricos na Idade Média. Livro de Homenagem ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno, coord. Luís Adão da Fonseca et al, vol. II , Porto, Livraria Civilização.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Mestria
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1329, V 935
(C 1329)

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1329

Cancioneiro da Vaticana - V 935


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas