Antroponímia referida na cantiga:
  (ver na rubrica)

Estêvão da Guarda

Rubrica:

 

Esta cantiga foi feita a um escudeiro que havia nome Macia, que era escudeiro do Meestre d'Alcântara e veera a el-rei de Portugal com suas preitesias e dava-lhe a entender que levaria do Meestre d'Alcântara mui grand'algo; e el andava-lhi com mentira e pera levar del algo.


  Pois cata per u m'espeite      ←
com sas razões d'engano      ←
e me quer meter a dano,      ←
por end', antes que mo deite,      ←
5       deitar quer'eu todavia      ←
       o ma[s]tique a Dom Macia.      ←
  
Pois me tenta de tal provo,      ←
per que m'há já esperado,      ←
eu, com'home de recado,      ←
10em véspera d'Ano Novo,      ←
       deitar quer'eu todavia      ←
       o ma[s]tique a Dom Macia.      ←
  
E pois ele, às primeiras,      ←
quer de mim levar o meu,      ←
 15come engador judeu,      ←
em vésperas de Janeiras,      ←
       deitar quer'eu todavia      ←
       o ma[s]tique a Dom Macia.      ←



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Nota geral:

Cantiga que é uma resposta à situação explicada na rubrica e relativa a um escudeiro do mestre da Ordem Militar de Alcântara. O mastique, termo que aparece no refrão, era uma espécie de goma ou cola para apanhar insetos ou pequenas aves. Nesta medida, percebe-se o sentido do refrão: vou tratar de deitar-lhe o laço, antes que ele mo deite. Pelas explicações da mesma rubrica deve talvez entender-se que quem fala aqui é o rei.
Segundo recentes investigações de Cláudio Neto1, é possível que a cantiga date do período da guerra luso-castelhana que opôs Afonso IV ao seu genro Afonso XI de Castela (1336-1338), e durante a qual a Ordem de Alcântara, cujos domínios estavam estrategicamente situados na fronteira entre os dois reinos, teve um papel central. Dependentes da coroa castelhana, mas com vastos domínios em território português, os seus mestre procuraram manter uma certa equidistância no conflito, servindo até de embaixadores entre as partes, como foi o caso, muito particularmente, de Gonzalo Martínez de Oviedo, possivelmente o mestre aludido na cantiga. A ser assim, ela poderá datar ou dos finais de 1337, já que em Dezembro desse ano há registo de o mestre ter iniciado negociações com o monarca português, ou dos finais de 1338, data em que as relações de D. Gonzalo com o monarca castelhano se deterioram de maneira irreversível, chegando o mestre a oferecer então as suas fortalezas a Afonso IV, que, em troca, lhe promete o mestrado de Avis. Em qualquer dos casos, D. Macia seria certamente um dos enviados de D. Gonzalo (que, diga-se, acabou deposto, cercado pelas tropas castelhanas e executado no final de 1339).

Referências

1 Neto, Cláudio (2012), As Ordens Militares na cultura escrita da Nobreza - 1240-1350. Representações nas cantigas de escárnio e de maldizer, FCSH-UNL, Dissertação de Mestrado, 85-94.
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Nota geral


Descrição

Cantiga de Escárnio e maldizer
Refrão
Cobras singulares
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 1314, V 919

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 1314

Cancioneiro da Vaticana - V 919


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas