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  (linha 8)

Martim Soares


Maravilho-m'eu, mia senhor,      ←
de mim, como posso sofrer       ←
quanta coita me faz haver,      ←
des que vos vi, o voss'amor;      ←
5e maravilho-me log'i      ←
de vós, por leixardes assi       ←
voss'hom'em tal coita viver.      ←
  
Aquesto dig'eu, mia senhor,      ←
por quanto vos quero dizer:      ←
10porque vos fez Deus entender       ←
de todo bem sempr'o melhor;      ←
e a quem Deus tanto bem deu       ←
devia-s'a nembrar do seu      ←
homem coitado e a doer      ←
  
15de tam coitado, mia senhor,       ←
com'hoj'eu vivo, que poder      ←
nom hei de gram coita perder       ←
per al já, se per vós nom for;      ←
e se quiserdes, perderei      ←
20coita per vós ou morrerei;      ←
ca todo é em vosso prazer.      ←
  
E a mia coita, mia senhor,       ←
nom vo-la houvera a dizer,      ←
ante me leixara morrer,      ←
25senom por vós, que hei pavor       ←
de que têm, senhor, por mal       ←
de quem a seu homem nom val,       ←
pois poder há de lhi valer.      ←
  
E pois vos outro bem nom fal,       ←
30por Deus, nom façades atal       ←
 torto qual oídes dizer.      ←



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Nota geral:

O trovador começa por dizer à sua senhora que se espanta de como conseguiu suportar a dor que o seu amor lhe causa. Mas que se espanta também com o facto de ela deixar morrer assim o seu home, isto é, o seu vassalo. E até ao final da composição, o trovador vai servir-se exatamente das regras e do vocabulário do contrato feudal, sobretudo na parte relativa ao dever de ajuda, o qual implicava que o senhor tinha por obrigação socorrer os seus homens ou vassalos em perigo.
Assim, uma senhora a quem Deus deu tanto discernimento, deveria lembrar-se do seu home coitado e condoer-se dele (2ª estrofe); pois só ela lhe poderá valer, estando ele disposto a fazer o que lhe der mais prazer, incluindo morrer (3ª estrofe); e se bem que ele estivesse disposto a calar a sua mágoa e a deixar-se morrer (4ª estrofe), se fala é unicamente porque receia que esta morte cause dano à sua reputação (devido ao já referido dever de ajuda). E termina pedindo-lhe que não faça esse crime.
O recurso ao universo jurídico das relações de vassalagem parece ter a preferência de Martim Soares, que o retoma em várias das suas cantigas de amor.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras uníssonas (rima c singular)
Palavra(s)-rima: (v. 1 de cada estrofe)
mia senhor
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 42, B 154

Cancioneiro da Ajuda - A 42

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 154


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas