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  (linha 22)

Martim Moxa


Algũa vez dix'eu em meu cantar      ←
que nom querria viver sem senhor;       ←
e porque m'ora quitei de trobar,      ←
 muitos me têm por quite d'amor      ←
5e cousecem-me do que fui dizer,       ←
que nom queria sem senhor viver,      ←
 com'or'assi me foi d'amor quitar.      ←
  
Já m'eu quisera com meu mal calar,      ←
mais que farei com tanto cousidor?       ←
10Haver-lhes-ei mia fazend'a mostrar,      ←
que nom tenham que viv'eu sem amor?      ←
Ca senhor hei que me tem em poder       ←
e que sabe que lhe sei bem querer;       ←
mais eu bem sei ca lhe faç'i pesar.      ←
  
15E, se trobar, sei ca lhe pesará,      ←
pois que lhe pesa de lhe querer bem;       ←
e, se m'alguém desamar, prazer-lh'-á      ←
d'oir o mal que me per amor vem,      ←
e ar pesará [a] quem me bem quiser;      ←
 20por en nom trobo, ca nom m'é mester;      ←
mais que nom am', esto nunca será!      ←
  
E meu trobar, aquesto sei eu já      ←
 que nom mi há prol, senom por ũa rem:      ←
per queixar hom'a gram coita que há,      ←
  25já que lezer semelha que lh'en vem;      ←
mais se mia coit'eu mostrar e disser,      ←
pois i pesar a mia senhor fezer,      ←
 coit'haverei que par nom haverá.      ←
  
E de tal coita, enquant'eu poder,      ←
30guardar-m'hei sempr'; e o que sem houver,      ←
pois lo souber, nunca m'en cousirá.      ←



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Nota geral:

Cantiga que Martim Moxa terá feito depois de um período de relativo silêncio poético, como refere no v. 3. O seu ponto de partida é a crítica que, segundo o trovador, muitos lhe fazem, apontando-lhe uma eventual incoerência: na verdade, dizem, se afirmou numa sua composição (que não conseguimos localizar, pelo que se terá perdido) que não queria viver sem uma senhora a quem amar, e se, entretanto, deixou de fazer trovas, é porque, afinal, desistiu do amor. Embora preferisse guardar silêncio sobre os seus males, é esta crítica que ele vai rebater a partir da segunda estrofe, sobretudo porque, diz, já não suporta tantos intrometidos.
Garantindo, pois, que continua a amar a sua senhora, explica que deixou de trovar, antes de mais, porque sabe que ela se desgosta com essas confissões de amor. Mais: falando das suas mágoas, alegrará os que lhe querem mal e afligirá os que lhe querem bem. De resto, como acrescenta na 4ª estrofe, as trovas de nada lhe valerão perante a sua senhora, a sua única vantagem sendo poder desabafar um pouco as suas mágoas. Mas as desvantagens são maiores: se a sua senhora se desgostar, a sua dor será incomensurável. E isto ele quer evitar, e ninguém de bom senso o poderá criticar por isso.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: (v. 4 de cada estrofe)
amor (I, II), vem (III, IV)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 306

Cancioneiro da Ajuda - A 306


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas