Peire Cardenal
Compositor
Notas biográficas:

A Vida de Peire Cardenal não é anónima, mas sim assinada por Miquel de la Tor, escrivão e copista de cancioneiros, que deve ter conhecido pessoalmente o trovador. Diz-nos ele que Peire nasceu em Puy (Puy-en-Velais), de família nobre. Destinado por seus pais a ser clérigo, desde cedo se dedicou às letras e à arte trovadoresca, tendo escrito sobretudo sirventeses, e viajado por diversas cortes com o seu jogral (que cantava as suas composições), sendo muito protegido pelo rei Jaime I de Aragão. Miquel de la Tor informa-nos ainda que morreu muito idoso, com cerca de cem anos.
Como adianta Martin Riquer (a), estas informações (incluindo a idade) são certas, já que nos são confirmadas por outras fontes. Podemos, no entanto, acrescentar-lhe mais algumas. Nascido talvez por volta de 1180, deve ter iniciado a sua atividade trovadoresca por volta de 1200. Sabemos que na sua juventude foi escrivão do conde de Toulouse, Raimundo VI, nessa qualidade aparecendo num documento de 1205, sendo que a sua ligação ao conde e à cidade aparecem também referidas em muitas das suas composições. Passou decerto por diversas cortes occitânicas, pela corte aragonesa de Jaime I, como diz a Vida, e pela corte castelhana de Afonso X, embora estas viagens pareçam esporádicas, já que deve ter residido preferencialmente na sua terra de origem. Parece que se casou por volta de 1230 com uma marselhesa, de quem teve filhos. A sua última composição datável é de 1272, o que confirma a sua longuíssima carreira.
Peire Cardenal foi uma testemunha privilegiada da lírica occitânica, desde a sua fase áurea aos anos de declínio. Como diz a sua Vida, a canção de amor não parece interessar-lhe particularmente, antes lhe preferindo o sirventês, que usa como meio de intervenção moral e cívica, sempre em tom levemente humorístico e irónico. Um dos seus alvos preferidos são os clérigos e monges corruptos, com especial destaque para os dominicanos, a ordem criada aquando da anexação dos países occitânicos pela França do norte – sendo os franceses exatamente outro dos destinatários maiores da sua sátira. É neste sentido que a sua fidelidade aos senhores de Toulouse, temperada com a consciência de ser esta uma causa perdida, deve ser entendida já não tanto em termos feudais, como acontece com a maioria dos restantes trovadores, mas como tomada de posição política, no sentido quase moderno da expressão.
De Peire Cardenal nos chegaram noventa e seis composições de atribuição segura. No seu conjunto, a originalidade, a clareza de expressão e o notável talento de Peire Cardenal, juntamente com o seu visível amor à terra occitânica, fazem dele um dos grandes trovadores provençais.

(a) Los trobadores. Historia literaria y textos, 3ª ed., Barcelona, Editorial Ariel, 2011

Cantigas de Peire Cardenal


Un estribot farai que er mot maistratz

Contrafacta:

Mort'é Dom Martim Marcos, ai Deus! Se é verdade, por Pero da Ponte