Pero da Ponte


Tam muito vos am'eu, senhor,
que nunca tant'amou senhor
home que fosse nado;
pero, des que fui nado,
5nom pud'haver de vós, senhor,
por que dissess': ai, mia senhor,
em bom pont'eu fui nado!
Mais quem de vós fosse, senhor,
bom dia fôra nado!
  
10E o dia que vos eu vi,
senhor, em tal hora vos vi
que nunca dormi nada,
nem desejei al nada
senom vosso bem, pois vos vi!
15E dig'a mi: por que vos vi,
pois que mi nom val nada?
Mal dia nad', eu que vos vi,
e vós bom dia nada!
  
Que se vos eu nom viss'entom
20quando vos vi, podera entom
seer d'afã guardado;
mais nunc'ar fui guardado
de mui gram coita, des entom;
e entendi-m'eu des entom
25que aquel é guardado
que Deus guarda; ca, des entom,
é tod'home guardado.



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Nota geral:

O trovador diz à sua senhora que, se a ama como nenhum homem amou outra mulher, nunca dela recebeu qualquer recompensa (que o levasse a considerar feliz o dia em que nasceu). Desde que a conheceu, acrescenta, nunca mais conseguiu dormir, desejando-a em exclusivo. Mas esse amor nada lhe adianta. Se não a tivesse conhecido, teria evitado todo o sofrimento. Mas não se soube guardar e entende agora o proverbio "guardado é quem Deus guarda".
Para além desta referência final a um provérbio ainda hoje conhecido, a composição é sobretudo original pelo requintado jogo com as repetições binárias no final de todos os versos (os dobre sucessivoss).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras singulares
Dobre: senhor, vi, entom (vv. 1, 2, 5, 6, 8 de cada estrofe); nado, nada, guardado (vv. 3, 4, 7, 9)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 288, B 979, V 566
(C 979)

Cancioneiro da Ajuda - A 288

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 979

Cancioneiro da Vaticana - V 566


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas