Rui Fernandes de Santiago


Ora começa o meu mal
de que já nom temia rem;
e cuidava que m'ia bem,
e todo se tornou em mal:
 5       ca o dem'agora d'amor
       me fez filhar outra senhor!
  
E já dormia tod'o meu
sono e já nom era fol
e podia fazer mia prol.
10Mais lo poder já nom é meu:
       ca o dem'agora d'amor
       me fez filhar outra senhor!
  
Que ledo me fezera já,
quando s'Amor de mim quitou,
15um pouco que mi a mim leixou;
mais doutra guisa me vai já:
       ca o dem'agora d'amor
       me fez filhar outra senhor!
  
E nom se dev'hom'alegrar
20muito de rem que poss'haver;
ca eu, que o quige fazer,
nom hei já de que m'alegrar:
       ca o dem'agora d'amor
       me fez filhar outra senhor!
  
25A[o] dem'acomend'eu Amor;
  e bẽeiga Deus a senhor
de que nom será sabedor
nulh'hom', enquant'eu vivo for.



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Nota geral:

Pensando que estava já livre do amor e que tudo lhe corria bem (pois já dormia e sentia-se sensato e alegre), o trovador vê agora que se enganou e que o seu mal recomeça: pois o diabo o fez apaixonar-se por uma nova senhora. De modo que, como conclui, ninguém deve alegrar-se muito com qualquer coisa que tenha, já que a alegria depressa se perde - como foi o seu caso. E termina mandando para o diabo o Amor, e pedindo a Deus que abençoe a sua nova senhora, cuja identidade não revelará.
É possível que haja uma relação de continuidade entre esta composição e a anterior (onde o trovador exprime o seu desespero pela partida definitiva da sua senhora).



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Refrão
Cobras singulares
Dobre: mal, meu, já, alegrar (v. 1 e 4 de cada estrofe)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 309, B 901, V 486

Cancioneiro da Ajuda - A 309

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 901

Cancioneiro da Vaticana - V 486


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas