João Soares Somesso


Muitos dizem que perderám
 coita d'amor sol per morrer
– e se verdad'é, bem estam.
Mais eu non'o posso creer
5que home perderá per rem
coita d'amor, sem haver bem
da dona que lha faz haver!
  
E os que esto creúd'ham,
Deus! e que querem mais viver?
10Pois que dali bem nom estam
 onde querriam bem prender,
 em sobejo fazem mal sem;
ou, de pram, amor non'os tem
em qual coita mi faz sofrer.
  
15Ca se eles houvessem tal
coita qual hoj'eu hei d'amor,
ou sofressem tam muito mal
com'eu sofro por mia senhor,
hoj'haveriam a querer
20mui mais sa morte ca 'tender
de viverem tam sem sabor
  
com'hoj'eu viv', e nom por al.
E por esto sofr'a maior
coita do mundo e maior mal,
25porque nom sõo sabedor
daquesto que ouço dizer.
E esto me faz defender
de mort'e nom doutro pavor.



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

Composição que retoma um dos tópicos centrais das cantigas de amor, a morte como solução para a coita, mas reformulando-o através de uma perspetiva original. Assim, se muitos dizem que perderão o seu mal de amor quando morrerem, o trovador duvida, já que, para ele, o sofrimento só acabará quando a senhora amada ceder a esse amor. De resto, pergunta: se acreditam mesmo no que dizem, então por que razão continuam a viver? Só pode ser porque a sua dor não é assim tão forte, pelo menos tão forte como a dele. E o que torna a sua coita mais intensa é o facto de, não acreditando nessa teoria, a morte para ele não ser solução.
O trovador continua a desenvolver este mesmo tema na cantiga seguinte.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: bem (nom) estam, mal (v. 3 de cada estrofe)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 19, B 112

Cancioneiro da Ajuda - A 19

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 112


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas