João Soares Somesso


Agora m'hei eu a partir
de mia senhor, e d'haver bem
me partirei, poila nom vir;
mais per que[m] m'aqueste mal vem
5em tamanha coita será
 por en migo que morrerá,
e nom se pode guardar en.
  
E pois me dela faz partir,
nom lhe quero já sofrer rem,
10nem quer'a ela consentir
quanto mal me faz; e por en
um vassalo soo que há,
de pram, de morte perdê-l'-á,
por esta coita em que me tem.
  
15Pero sei eu ca rem nom dá
ela por est'home perder,
mais per sa morte saberá!
E se lh'eu podess'al fazer,
por aqueste mal que me faz,
20al lhe faria; mais nom praz
a Deus de m'en dar o poder.
  
E pois me Deus poder nom dá
de me per al rem defender,
est'haverei a fazer já;
25e ela bem pod'entender
que esta morte bem me jaz,
ca nom poss'eu viver em paz
enquanto lh'est'home viver!



 ----- Aumentar letra ----- Diminuir letra

Nota geral:

O trovador, obrigada a afastar-se da sua senhora, promete vingar-se de quem lhe causa este mal. E assim, nas estrofes seguintes, retomando o equívoco já esboçado numa cantiga anterior, afirma que um vassalo que ela tem irá morrer. E embora saiba que para ela será indiferente perder esse vassalo, pelo menos fará questão em que ela tome conhecimento dessa morte. Se, infelizmente, nada mais pode fazer para se defender do mal que ela lhe causa, pelo menos isso fará. E ela ficará também a saber como essa morte lhe dará prazer, pois, como conclui, enquanto tal homem viver, ele não poderá ter paz.
Como se compreende, o vassalo e o trovador são um só. Chamamos de novo a atenção para os divertidos comentários (notas M) escritos por um leitor do século XV na margem do Cancioneiro da Ajuda.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: partir (I, II), nom dá (III, IV) (v. 1 de cada estrofe)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 18, B 111

Cancioneiro da Ajuda - A 18

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 111


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas