João Soares Somesso


Muitas vezes em meu cuidar
hei eu gram bem de mia senhor;
 e quant'ali hei de sabor,
  se mi ar torna pois em pesar,
 5des que m'eu part'; e nulha rem
me nom fica daquel gram bem,
e nom me sei conselh'achar.
  
Nem acharei, erg'em cuidar,
conselh', enquant'eu vivo for,
10ca 'ssi me tem forçad'Amor
que me faz atal don'amar
que me quer mui gram mal por en;
e porque nom sab'amar, tem
que nom pod'hom'Amor forçar.
  
15Mais Amor há tam gram poder
que forçar pode quem quiser;
e pois que mia senhor nom quer
 esto d'Amor per rem creer,
jamais seu bem nom haverei,
20senom assi como mi o hei:
sempr'em cuidá'lo poss'haver!
  
Ca Deus me deu tam gram poder
 que, mentre m'eu guardar poder
de fala d'hom'ou de molher,
25que nom poss'este bem perder:
ca sempr'em ela cuidarei,
e sempr'em ela já terrei
o coraçom, mentr'eu viver.



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Nota geral:

O confronto entre a imaginação e a realidade é tema desta cantiga. A questão é resumida pelo trovador logo na 1ª estrofe: muitas vezes, em pensamento, imagina receber os favores da sua senhora; mas o gosto que então tem logo se transforma em tristeza, e nada lhe fica desse bem, nem sabe o que fazer. A única saída, como afirma na 2ª estrofe, é continuar a imaginar, pois o Amor força-o a amar uma senhora que o detesta por isso mesmo; e como ela não sabe amar, não acredita que o Amor tem tal poder. Ora, como prossegue na 3ª estrofe, o Amor tem efetivamente esse poder, e, não acreditando a dama em tal coisa, nunca poderá obter os seus favores senão em imaginação. Na última estrofe, ele explica melhor o que fará: enquanto se conseguir isolar, não falando com ninguém, pode imaginar à sua vontade e não perder esse bem. E assim se propõe continuar a pensar nela durante toda a vida.
Chamamos novamente a atenção para os divertidos comentários marginais (M) que um leitor do século XV escreveu nas margens do Cancioneiro da Ajuda.
Note-se ainda que, na cantiga seguinte, o trovador retoma e explica melhor aquilo em que cuida.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: cuidar (I, II), poder (III, IV)
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 16, B 109

Cancioneiro da Ajuda - A 16

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 109


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas