Vasco Praga de Sandim


  Senhor fremosa, par Deus, gram razom
seria já agora se em prazer
vos caesse de quererdes prender
 doo de mim; ca, bem dê'la sazom
5que vos eu vi e que vosco falei,
Deu'lo sabe ca nunca desejei
bem deste mundo se o vosso nom;
  
nem desejarei no meu coraçom
enquant'eu já eno mundo viver;
 10ca, de pram, vos hei maior bem querer
de quantas cousas eno mundo som.
E de mais, ũa cousa vos direi:
 nom me quitará rem, eu ben'o sei,
de vos querer assi, se morte nom;
  
15ca, de pram, se m'end'houvess'a quitar
nulha cousa sem morte, mia senhor,
quitar-m'end'-ia o mui gram sabor
que vos vejo haver de m'alongar
de vós, mui mais ca outr'home por en;
 20mais, mia senhor, direi-vos ũa rem:
nom vos am'eu por vos ar desamar,
  
ben'o creede, mais por vos buscar
muito serviç'enquant'eu vivo for,
e porque vos fez parecer melhor
25Deus doutra dona, e melhor falar.
E El que vos tal fez, se m'algum bem
nom der de vós, senhor, nom me dê sem
nem poder de vos por en desamar.
  
Ca sei eu bem, u outra rem nom jaz,
30ca me será, mia senhor, mais mester
 de veer-vos, se end'a vós prouguer,
ca me será o maior bem que faz
en'este mund'[a] hom'outra molher.



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Nota geral:

O trovador começa por dizer à sua senhora formosa que seria muito justo se ela se decidisse a ter dó dele, pois nunca desejou mais ninguém, desde que a conheceu. Nem desejará enquanto for vivo, pois nada lhe poderá arrancar do coração este amor, senão a morte. Pois sabe que, se algo, salvo a morte, fosse capaz de o levar a deixar de a amar, até poderia aceitar que fosse o prazer que sabe que ela sentiria se ele se afastasse (ele, mais do que qualquer outro). No entanto, acrescenta, não a ama para deixar de a amar (ou seja, não é um sentimento passageiro), mas sim para servi-la sempre, a ela, a mais bela e eloquente das donas. E só pede a Deus que, embora não tendo o seu favor, nunca permita que este amor termine, Porque vê-la (e não se afastar) é o maior bem que pode ter neste mundo.



Nota geral


Descrição

Cantiga de Amor
Mestria
Cobras doblas
Palavra(s)-rima: nom, desamar (v. 7 de cada estrofe)
Finda
(Saber mais)


Fontes manuscritas

A 3, B 93

Cancioneiro da Ajuda - A 3

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 93


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

Desconhecidas