Afonso X


   Joam Rodriguiz foi desmar a Balteira
sa midida, per que colha sa madeira;
e disse: - Se bem [o] queredes fazer,
de tal midida a devedes colher
 5[assi] e não meor, per nulha maneira.
  
E disse: - Esta é a madeira certeira,
e, de mais, nõn'a dei eu a vós sinlheira;
e pois que s'em compasso há de meter,
atam longa deve toda [de] seer
  10[que vaa] per antr'as pernas da 'scaleira.
  
A Maior Moniz dei já outra tamanha,
 e foi-a ela colher logo sem sanha;
e Mari'Airas feze-o logo outro tal,
 e Alvela, que andou em Portugal;
 15e já i as colherom [e]na montanha.
  
E diss': - Esta é a midida d'Espanha,
  ca nom de Lombardia nem d'Alamanha;
e porque é grossa, nom vos seja mal,
 ca delgada para gata rem nom val;
 20e desto mui mais sei eu [i] ca boudanha.



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Nota geral:

Divertido equívoco que Afonso X compõe a propósito deste João Rodrigues, pelos vistos um funcionário fiscal, aqui em vias de fazer cálculos com a famosa Maria Balteira, com vista ao corte da madeira para uma casa que a soldadeira ia construir (madeira, ao que parece, fornecida pelo próprio Afonso X das suas matas reais). O equívoco, de óbvio sentido erótico, gira à volta da medida dessa madeira e ocasiona mesmo algumas comparações internacionais, de nítido cariz político.
Ao mesmo João Rodrigues dirige o rei uma outra cantiga, que infelizmente nos chegou incompleta.



Nota geral


Descrição

Escárnio e Maldizer
Mestria
Cobras doblas
(Saber mais)


Fontes manuscritas

B 481, V 64

Cancioneiro da Biblioteca Nacional - B 481

Cancioneiro da Vaticana - V 64


Versões musicais

Originais

Desconhecidas

Contrafactum

Desconhecidas

Composição/Recriação moderna

A Balteira      versão audio disponível

Versão de Eurico Carrapatoso